“É um engano pensar que a arquitetura possa ser tratada como um assunto estanque; e engano maior pretender individualizá-la com base na análise formal, desvinculando-a de seus fundamentos econômicos, políticos e sociais.”
Luiz Saia

“É um engano, pois, pensar que a arquitetura possa ser tratada como um assunto estanque; e engano maior pretender individualizá-la com base na análise formal, desvinculando-a de seus fundamentos econômicos, políticos e sociais.”

Luís Saia 1

Monumento às Bandeiras Paulistas, escultura em granito de Victor Brecheret. 11 metros de altura x 8,4 metros de largura x 43,8 metros de comprimento.      Foto: Dalton Sala    1984.

 

Este módulo trata basicamente do surgimento e da evolução das palavras /bandeira/ e /bandeirante/ dentro da historiografia brasileira, invocando também a documentação necessária para circunscrever a questão.

Sem pretender exaurir as interrogações; pelo contrário, a intenção é colocar as bases de uma problematização que entende a história das bandeiras paulistas como um processo marcado pelo tempo histórico (isto é, o tempo construído pelos historiadores), atendendo à dinâmica das conjunturas econômicas, sociais e políticas.

Assinalada a ausência das palavras /bandeira/ e /bandeirante/ nas Atas da Câmara da Vila de São Paulo, a definição de uma /bandeira/ como formação militar é fornecida por um texto de Maquiavel.

Contribuição importante é fornecida pela narrativa dos jesuítas Simão Maceta e Justo Mancila, testemunhas das expedições paulistas contra as missões do Guairá: ao testemunhar a violência das ações, os padres falam (ao que parece pela primeira vez) em /bandeiras/ ao se referir aos ataques partidos de São Paulo.

Em seguida, vêm os textos dos historiadores: frei Vicente do Salvador, Pedro Taques, frei Gaspar da Madre de Deus, em maior ou menor grau contribuindo para a compreensão das expedições de reconhecimento e conquista do sertão, inclusive deixando claro que tais expedições não tinham São Paulo como ponto de partida exclusivo.

Cláudio Manoel da Costa fala clara e diretamente em /bandeiras/, e a partir daí Varnhagen, Capistrano de Abreu e Taunay vão dando corpo à interpretação do /bandeirante paulista/ como herói civilizador.

A preocupação maior é mostrar a /história das bandeiras/ como uma construção evoluindo no tempo. A partir dessa demonstração fica possível buscar entender as casas bandeiristas em uma dupla perspectiva: em primeiro plano, como documentos de um processo de exploração e domínio de um território colonial; em segundo plano, como elemento estrutural de um processo de reconhecimento do processo anterior.

Na intersecção desses dois planos, história e historiografia, é possível ensaiar mais uma tentativa de compreensão das /casas bandeiristas/.

This section is basically concerned with the emergence and evolution of the words /bandeira/ and /bandeirante/ within Brazilian historiography, while referecing the essential documentation relating to this topic.

However it does not claim to provide all the answers; on the contrary, the intention is to begin to problematize an understanding of the history of the São Paulo’s bandeiras as a process marked by historical time (i.e. a concept of time constructed by historians), taking into consideration the dynamics of economic, social and political situations at given moments.

Given the notable absence of the words /bandeira/ and /bandeirante/ in the Proceedings of the São Paulo Town Council, the definition of a /bandeira/ as a military unit is provided in a text by Machiavelli.

An important contribution was made by the narrative written by the Jesuits Simão Maceta and Justo Mancila, who witnessed first hand the São Paulo’s expeditions against the Guairá missions. Upon witnessing the violent acts that ensued, the priests used the term /bandeiras/ (seemingly for the first time) when referring to the attacks launched from São Paulo.

Then came the texts written by the historians Father Vicente do Salvador, Pedro Taques, and Father Gaspar da Madre de Deus, which to a greater or lesser extent increased our understanding of the reconnaissance expeditions and conquest of the hinterland, even making it clear that such expeditions did not exclusively depart from São Paulo.

Cláudio Manoel da Costa speaks clearly and directly about /bandeiras/, and from then on Varnhagen, Capistrano de Abreu and Taunay continued to lend weight to the interpretation of the /São Paulo’s bandeirante/ as a civilizing hero.

Our main concern is to show the /history of the bandeiras/ as a construct that has evolved with the passage of time. By illustrating this it is then possible to seek to understand the bandeirista houses from a dual perspective: first, as documenting a process of exploration and conquest of a colonial territory; second, as a structural element of a process of recognition of the previous process.

From the intersection of these two perspectives, the historical and the historiographical, emerges a new possibility for furthering our understanding of the /bandeirista houses/.

NOTAS:
1.  SAIA, Luís. NOTAS SOBRE A EVOLUÇÃO DA MORADA PAULISTA. São Paulo, Acrópole, 1957, página sem número (Introdução: p. 3).

para fazer o download do texto completo clique aqui

“É um engano pensar que a arquitetura possa ser tratada como um assunto estanque; e engano maior pretender individualizá-la com base na análise formal, desvinculando-a de seus fundamentos econômicos, políticos e sociais.”
Luiz Saia

Taipa de Bico: Casa de João de Barro Foto Tiago Sala 2015

Taipa de Bico: Casa de João de Barro | Foto: Tiago Sala 2015

 

 

O objetivo deste trabalho, colocando em sítio digital um conjunto de informações sobre Casas Bandeiristas: Arquitetura Colonial Paulista, é disponibilizar para a Rede Pública de Ensino um instrumento de referência sobre a história de São Paulo e do Brasil, utilizando a arquitetura como fato social básico.

Com isto se pretende também recolocar uma discussão sobre o espaço (geográfico, arquitetônico e simbólico) como lugar privilegiado das vivências sociais, entendendo a história (conhecimento) e a memória (reconhecimento) como pressupostos básicos de cidadania e de participação política democrática.

Do ponto de vista teórico, ensaia uma revisão do conceito de /Casa Bandeirista/ enquanto modelo ideal, buscando bases empíricas (ou seja, os remanescentes arquitetônicos: as casas que ainda existem e a lembrança das casas que desapareceram) capazes de configurar um partido arquitetônico em transformação ao longo do tempo e em adaptação conforme necessidades diversas.

Do ponto de vista prático, busca incorporar a pequena arquitetura, incluindo casas populares no estudo deste processo de transformação e adaptação de um partido arquitetônico, conforme diversos programas, ao longo da expansão colonial em território sul-americano.

Para isso foi necessário rever a história das definições de /bandeira/, /bandeirante/ e /casa bandeirista/, de seus processos de valorização e restauro, de suas mitologias e celebrações.

Sem se pretender definitivo ou conclusivo, repropõe uma discussão, sugerindo a visitação e o conhecimento destes locais de memória onde se construiu o Brasil presente, assim como uma reflexão histórica na presença destes monumentos.

 

Dalton Sala

 

 

The aim of this project to digitize information about the Bandeirista Houses: São Paulo’s Colonial Architecture is to provide a reference tool for teaching the history of São Paulo and Brazil in the state-school system, using architecture as a fundamental social phenomenon.

The project also seeks to promote discussions about space (geographical, architectural and symbolic) as a privileged site of social existence, understanding history (knowledge) and memory (recognition) as basic prerequisites of citizenship and democratic political participation.

From a theoretical perspective, this project proposes a revision of the concept of /the Bandeirista House/ as an ideal model, seeking empirical sources (in other words, architectural remains: the houses that are still in existence and the memories of those that have been lost) that can piece together um architectural environment that has been transformed over time and adapted to suit diverse needs.

From a practical point of view, the project aims to incorporate less significant buildings, including modest dwellings, into the study of this process of transformation and adaptation of an architectural environment to suit various different purposes throughout the period of colonial expansion on the territory of South America.

In order to do so it has been necessary to revisit the history of the definitions of the terms /bandeira/, /bandeirante/ and /bandeirista house/, along with the processes of valorization and restoration of the houses, and their mythologies and commemorations.

Without claiming to be definitive or conclusive, this project proposes further discussion, advocating visits to and familiarization with these memory sites where the foundations of present-day Brazil were laid, in addition to historical reflection on the presence of these monuments.

 

Dalton Sala


 

 

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