BRASIL: MINAS GERAIS  Amarantina  PEDRA

Situada na antiga São Gonçalo do Amarante, hoje Amarantina, entre Itabirito e Cachoeira do Campo, aproximadamente a 30 km de Ouro Preto, a Casa de Pedra é também conhecida como Casa Bandeirista.

Possivelmente construída em fins do Século XVII ou inícios do XVIII, tinha planta quadrada em três lanços, telhado de quatro águas com telhas de canal, alpendre aberto à frente, com colunas de madeira e dois cômodos laterais; a única diferença notável em relação às casas paulistas é a utilização da pedra em vez da taipa.

Localizada pelo arquiteto Silvio Vasconcelos, não mereceu atenção que a protegesse e terminou por se arruinar. Foi reconstruída de acordo com a volumetria original, mas com técnicas mais recentes, utilizando estruturas metálicas.

Atualmente abriga o Espaço Cultural da Casa Bandeirista de Amarantina.

Located in the former São Gonçalo do Amarante, today Amarantina, between Itabirito and Cachoeira do Campo, approximately 30 km from Ouro Preto, Casa de Pedra is also known as Casa Bandeirista.

Possibly built in the late 17th century or the early 18th, it had a square floor plan with three sections, a hipped roof made from barrel tiles, and an open porch at the front, with wooden columns and two side rooms; the only notable difference in relation to the São Paulo houses is the use of stone instead of rammed earth.

Re-discovered by the architect Silvio Vasconcelos, it was not deemed worthy of protected status and ended up a ruin. It was rebuilt in accordance with its original dimensions, but using more modern techniques and incorporating metal structures.

Today the building houses the cultural centre Casa Bandeirista de Amarantina.

Casa de Pedra, antes do restauro

Casa de Pedra, antes do restauro

Casa de Pedra, antes do restauro

Casa de Pedra, antes do restauro

Em 1946, a Casa de Pedra de Amarantina já era objeto das atenções de Sílvio de Vasconcelos, que explicitava suas intenções de estudo a Rodrigo Melo Franco de Andrade, em ofício datado em Belo Horizonte a 26 de Novembro de 1946, no qual comunicava também o envio de três fotografias:

“387-46

Do Chefe do 3º Distrito da DPHAN

Ao Senhor Diretor Geral

Assunto: Envia fotografias

Em Belo Horizonte, 26 – Novembro – 1946.

Prezado Doutor Rodrigo Melo Franco de Andrade:

Envio-lhe hoje três fotografias 1, em duas cópias, de duas construções, uma localizada em São Gonçalo do Amarante, hoje Amarantina, município de Ouro Preto, e outra na Fazenda das Pedras, município de Lafaiete, esta última inventariada pelo doutor Salomão de Vasconcelos.

É curioso observar-se a absoluta identidade das duas construções, tanto na parte construtiva com o uso dos mesmos materiais, como no estilo e talvez nas próprias dimensões. Nota-se apenas dois pés direitos a mais na de Amarantina, que com certeza são escoras, e o telhado maior no da Fazenda, que todavia é cousa recente como se pode observar das telhas.

Estou providenciando a coleta de dados relativos à planta e dimensões das duas assim como pesquisas relativas às suas origens.

Sem mais, apresento-lhe as minhas mais cordiais saudações.

Sílvio de Vasconcelos

Chefe do 3º Distrito da DPHAN” 2

Fazenda das Pedras Foto Sílvio Vasconcelos (?)circa 1946 Foto 11.268 Negativo 29.406 Documento 19.441: Acervo do Arquivo Central do IPHAN – Seção Rio de Janeiro.

Fazenda das Pedras Foto Sílvio Vasconcelos        circa 1946 Foto 11.268 Negativo 29.406 Documento 19.441: Acervo do Arquivo Central do IPHAN – Seção Rio de Janeiro.

Fazenda das Pedras Foto Sílvio Vasconcelos (?)circa 1946 Foto 11.269 Negativo 29.405

Fazenda das Pedras Foto Sílvio Vasconcelos        circa 1946 Foto 11.269 Negativo 29.405

Fazenda Amarantina Foto Sílvio Vasconcelos (?)circa 1946 Foto 11.270 Negativo 29.404 Documento 19.443: Acervo do Arquivo Central do IPHAN – Seção Rio de Janeiro.

Fazenda Amarantina Foto Sílvio Vasconcelos       circa 1946 Foto 11.270 Negativo 29.404 Documento 19.443: Acervo do Arquivo Central do IPHAN – Seção Rio de Janeiro.

Dois anos depois, Sílvio Vasconcelos escrevia uma carta a Luís Saia, comunicando seus estudos:

“Belo Horizonte, 28 – Setembro – 1948

Caríssimo Saia:

Fiquei contentíssimo com a tão boa acolhida que você soube dar à minha primeira carta, apesar de incluir, já no primeiro estabelecimento do contato necessário, e de sopetão, um pedido de favor. Muitíssimo obrigado.

Fico cada vez mais cativo de São Paulo, tanto pelo grande desenvolvimento cultural em que se empenham como pela gentileza enorme dos cidadãos paulistas. É tamanha que até pretende explorar as vastas experiências do matuto mineiro. Só para agradá-lo.

Lastimo também, e muito, não poder estar em São Paulo tão pródigo atualmente de boas iniciativas, como a que motivou a sua palestra. De fato, ela tem toda procedência. A história do Brasil tem se resumido quase sempre em descrição de batalhas e transcrição de documentos. E mesmo em relação aos documentos, quase sempre de política. Só muito recentemente outras fontes vêm sendo pesquisadas e já não era sem tempo.

Tenho encontrado aqui alguns exemplares curiosos de arquitetura civil, muito semelhantes aos paulistas do século XVII (seu estudo na Revista do IPHAN 3) e não sei se você tem conhecimento deles. Um, por exemplo, em Amarantina (município de Ouro Preto) inclusive com uso do sótão para depósito. Difere apenas na técnica construtiva – alvenaria de pedras na periferia e taipa de sebe 4 nas divisões internas. É uma linda casas e diferente da arquitetura propriamente mineira do século XVIII.

Outra coisa: há estudos sobre a casa rural paulista do século XVIII? Será que assemelhou-se às mineiras pela característica da estrutura de madeira elevada do solo sobre esteios e agenciada no terreno a meia encosta sem plataforma ficando a parte da frente elevada e a de traz já na terra? É tão diferente da arquitetura estudada em seu artigo que fico tentado a considera-la própria de cá. Não se parece também com a fluminense de colunas de alvenaria e teria interesse em conhecer sua opinião sobre o caso. Este afogueamento meu em torno destes assuntos é decorrente do fato de estar dando na escola de arquitetura daqui a cadeira de ‘Arquitetura no Brasil’ e os conhecimentos são ainda muito poucos para uma responsabilidade destas. Tenho, assim, que me recorrer dos amigos, principalmente os gentilíssimos como você. Sairá, assim, o seu tiro pela culatra. Você quis vir buscar lã e vai é sair tosquiado. Enfim, estou apenas usando ou abusando da disposição tão amável em que se colocou, Desculpe aí se há excessos.

Um grande abraço do

Sílvio Vasconcelos” 5

As relações entre Sílvio de Vasconcelos e Luís Saia poderiam ter sido mais profícuas, mas não foram vistas com bons olhos por Rodrigo Melo Franco de Andrade, conforme palavras de Sílvio a Luís, em carta datada em Belo Horizonte, a 16 de Fevereiro de 1949:

“Dou a você uma candonga final. Parece que o doutor Rodrigo não está achando muito boa a história de nossas falações. Disse ao Antônio 6. E acrescentou que estava muito bem sua viagem a Minas para estudo, etc., mas a outro título e não para o Museu do Ouro, ‘o que seria uma invasão dele em seara alheia’ (expressão do Pajé). Você virá, porém, de qualquer jeito. Mesmo porque quero ser credor de um convite paulista para a minha pessoa também. Itinerário é fácil, você estando aqui depois das chuvaradas, para o uso do automóvel. E veremos também os arraiais que, de fato, têm muito mais caráter si bem mostrem menos a linha evolutiva das construções como nas cidades.”7

E assim os estudos conjuntos entre a arquitetura bandeirista e a arquitetura mineira (ou seja, os esforços no sentido de uma arquitetura brasileira integrada, em que o entendimento da continuidade superasse os estudos limitados e os sentimentos regionalistas) foram-se a uma baforada mal humorada de um pajé.

Apesar disso, iniciaram-se os estudos para tombamento da Casa Setecentista de Amarantina, também chamada Casa Rústica ou Casa de Amarantina: o nome Casa de Pedra foi dado depois, em função de uma denominação popular e tradicional.

Em 22 de Junho de 1963, o arquiteto Fernando Machado Leal, representante da Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em ofício dirigido a Judith Martins, reporta-se ao estado da Casa Rústica nos seguintes termos:

“Senhora Judith Martins:

Atendendo a solicitação de seu ofício nº 533 de 13 de Maio de 1963 vistoriei a casa rústica situada no distrito de Amarantina município de Ouro Preto, constatando o seguinte: o telhado e as paredes de pau a pique estão em condições precárias de conservação, enquanto as paredes de pedra (excetuando-se as cercaduras dos vãos) e o coroamento de adobe destas mesmas paredes se encontram em relativo bom estado. Trata-se de construção da mais alta importância merecendo restauração adequada. Segue documentação fotográfica infelizmente bastante má.” 8

A Casa de Amarantina foi tombada em 10 de Julho de 1963 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional 9; mas nada foi feito em relação à sua preservação, mesmo porque logo depois veio a ditadura militar e esses assuntos de cultura e história foram relegados a último plano e adiados sine die.

E assim, mesmo tombada, quando em 1982, se pensou em restaurar a Casa de Pedra, muito pouco restava dela.

“Atualmente a casa se encontra em ruínas apresentando restos de paredes de pedra que estão rapidamente se perdendo. Dada a importância histórica do imóvel, que é um remanescente das primeiras casas bandeiristas em Minas Gerais, é imprescindível que esta obra seja logo feita visto ser possível ainda sua recuperação dado o traçado original ainda definido pelas ruínas. Este monumento deverá ser futuramente utilizado como um núcleo de estudos de cultura do tropeiro em Minas Gerais.

Face ao abandono em que se encontram as referidas ruínas, torna-se necessário uma ação rápida para se salvar o que ainda resta e recuperar o imóvel dando uma função compatível com a sua importância.” 10

Mais dez anos se passaram, e o estado da casa é novamente registrado em um Parecer sobre a Casa Setecentista, firmado pela arquiteta Maria Cristina Rocha Simões e pela historiadora Mônica Massara, datado em Belo Horizonte a 25 de Maio de 1992, e dirigido à consideração da Senhora Coordenadora Regional Interina da 13ª Circunscrição do Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural:

“Situação atual do imóvel: em vistoria realizada no dia 12 de Maio próximo passado pela arquiteta Maria Cristina Rocha Simões, constatou-se a ruína do imóvel, existindo apenas restos das paredes e parte da primitiva fachada principal. A propriedade está invadida por espessa vegetação, o que impediu a verificação dos elementos subsistentes e estado atual da parte interna do lote.” 11

Finalmente, optou-se por uma reconstrução:

“Buscou-se uma intervenção onde se respeitasse ao máximo as características físicas da ruína e que a nova cobertura tenha um diagrama que remeta aos únicos registros existentes de cobertura, constantes no processo de tombamento pelo IPHAN de 1963. Lembrando que o tombamento citado ocorreu como edificação e não como ruína.” 12

Na pasta referente ao processo de tombamento da casa de Amararantina, ao final de todo o trâmite burocrático entre o diretor do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Rodrigo Melo Franco de Andrade), o chefe do então 3º Distrito da Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sílvio Vasconcelos), o detentor do maior número de partes da casa entre os herdeiros do imóvel (José Dias), o chefe da Seção de História (inicialmente Carlos Drummond de Andrade e depois Judith Martins), o assistente jurídico da Diretoria (Rafael Carneiro da Rocha), o representante da Diretoria encarregado da vistoria do imóvel (arquiteto Fernando Machado Leal), está uma nota em papel timbrado do Ministério da Educação e Cultura.

Trata-se de uma solicitação feita por Judith Martins a Lúcio Costa, respondida no mesmo papel:

“2.VII.63

Dr. Lúcio

Aí está o processo de tombamento da casa de Amarantina, para o Senhor ter a bondade de opinar a respeito.

Grata

J. Martins

Concordo com o Chefe do 3º Distrito. Interessa a preservação da casa como documento arquitetônico da penetração bandeirista.

L. C.

3 / VII / 63” 13

Uma afirmação como esta, onde Lúcio Costa entende a Casa de Pedra em Amarantina como ‘documento arquitetônico da penetração bandeirante’, é muito importante para o presente trabalho: pois é justamente isto que está sendo proposto: entender uma série ampla de casas como expressão de uma economia de reconhecimento e expansão do território colonial, e não apenas como um modelo ideal a ser descrito e recuperado por meio de restauros de uns escassos exemplares.

É claro que, em um primeiro momento, essa descrição do modelo ideal – a casa bandeirista entendida esquematicamente – significou o reconhecimento e a preservação de uma série de monumentos.

Mas hoje precisamos de um novo modelo de interpretação, capaz de superar a primeira proposta e propor novas perspectivas, entendendo a expansão como um processo da economia colonial e não como uma façanha paulista.

1. As três pequenas fotografias, bem como o original da carta, estão no Rio de Janeiro, guardadas no Arquivo Noronha Santos: IPHAN: ARQUIVO CENTRAL / RJ: SÉRIE INVENTÁRIO: MG 172 / 1: Pasta MG 172 / 1 / 04.

2. Ofício 387-46, de Sílvio Vasconcelos a Rodrigo Melo Franco de Andrade: Belo Horizonte, 26 de Novembro de 1946. Documento do Arquivo da 13ª Sub Regional II / Ouro Preto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

3. SAIA, Luís. NOTAS SOBRE A ARQUITETURA RURAL PAULISTA DO SEGUNDO SÉCULO. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional: nº 8, p. 211-275. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde, 1944.

4. Taipa de sebe: taipa de mão: pau a pique.

5. Carta de Sílvio de Vasconcelos a Luís Saia: Belo Horizonte, 28 de Setembro de 1948. Documento do Arquivo da 13ª Sub Regional II / Ouro Preto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

6. Quem seria o Antônio?

7. Carta de Sílvio Vasconcelos a Luís Saia: Belo Horizonte, 16 de Fevereiro de 1949. Documento do Arquivo da 13ª Sub Regional II / Ouro Preto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

8. Ofício de Fernando Machado Leal a Judith Martins: sem local, 22 de Junho de 1963. Documento do Arquivo da 13ª Sub Regional II / Ouro Preto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

9. Inscrição no Livro Histórico nº 362; Processo 0472-T.

10. Recuperação da Casa à Rua Pedrosa, em Amarantina, Ouro Preto. Documento do Arquivo da 13ª Sub Regional II / Ouro Preto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

11. Serviço Público Federal: Parecer: Identificação: Casa Setecentista à Rua Padre Pedrosa, Amarantina, Distrito de Ouro Preto. Documento do Arquivo da 13ª Sub Regional II / Ouro Preto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

12. Proposta de Intervenção: Departamento de Projetos Especiais da Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Documento da Secretaria Municipal da Cultura e Patrimônio de Ouro Preto.

13. Documento nº 20. Processo nº 472-T. DPHAN / D. E. T. Seção de História. Casa de Amarantina: Ouro Preto Minas Gerais. Arquivo Noronha Santos, Rio de Janeiro.

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