BRASIL: SÃO PAULO  São Paulo  CAXINGUI

Também chamada Casa do Sertanista, a Casa do Caxingui está situada em um ponto estratégico entre o Córrego Pirajuçara e o caminho que leva aos Campos de Curitiba.

A ocupação do sítio data do Século XVII, mas a escassa documentação relativa à maioria das casas bandeiristas dificulta o conhecimento de sua história.

Com planta retangular, construída em taipa de pilão, a casa tem paredes extensas, com poucas aberturas. A existência de uma única janela em cada fachada – frente e fundos – enfatiza o caráter militar do edifício que, além de moradia, servia à defesa contra eventuais ataques indígenas.

À semelhança das casas do Mandu e do Padre Inácio, chama atenção a elegante curvatura do telhado distribuído em quatro águas. São notáveis também os dois alpendres: um, na fachada principal e outro, nos fundos, tal como ocorre nas casas do Butantã e do Mandu.

Also named the Sertanista’s House, the house in Caxingui is situated at a strategic point between the Pirajuçara Stream and the road that leads to the Campos de Curitiba region.

The occupation of the site dates back to the 17th century, but the scant documentation in regard to most of the bandeirante houses limits our knowledge concerning its history.

With a rectangular floor plan, built of rammed earth, the house has extensive walls with few openings. The existence of a single widow on each facade – front and back – emphasizes the military character of this construction which, besides serving as a dwelling, was designed as a defense against eventual indigenous attacks.

The similarity it bears to the Mandu House and the Padre Inácio House calls attention to the elegant curvature of the hipped roof. Also notable are the two recessed porches into the facades – one at the front, the other at the back, just like the Butantã House and the Mandu House.[/inlges]

Casa do Caxingui: detalhe da curvatura do telhado. Foto: Tiago Sala2007

Casa do Caxingui: detalhe da curvatura do telhado.       Foto: Tiago Sala 2007

Mesmo que não tenhamos atualmente sequer uma noção precária do que poderia ser o conjunto das casas (hoje denominadas) bandeiristas no Século XVII e  de sua distribuição por um território que compreenderia não apenas as vilas de São Paulo, Santana de Parnaíba e Mogi das Cruzes 1, mas ainda os domínios ocupados pelas fazendas em torno dessas vilas e das outras que foram surgindo por seccionamento do território dessas três vilas: São Paulo (elevada à vila em 1560), Parnaíba e Mogi (elevadas à vila em 1625), ainda assim com os poucos vestígios que restaram, fica clara a função de domínio sobre o território que ao conjunto dessas casas cabia desempenhar.

Por domínio sobre o território deve-se entender, basicamente, a defesa dos acessos, ou seja, os caminhos terrestres e fluviais.

Dentro deste suposto esquema de defesa do Planalto de Piratininga, a Casa do Caxingui ocupa uma posição estratégica, a cerca de 150 metros da margem direita do Córrego Pirajuçara.

O Córrego Pirajuçara nasce no Embu; seu curso tem cerca de 17 quilômetros, antes de desaguar no Pinheiros, muito próximo à Casa do Butantã.

A posição da casa sugere um caminho de cima (hoje coincidindo com a Avenida Francisco Morato e o trecho inicial da Rodovia Regis Bittencourt), utilizado na estação das águas, quando as enchentes tornavam impraticável o caminho de baixo, que corria junto ao curso do córrego. E é claro que o curso d’ água servia, ele mesmo, como caminho fluvial.

Dentro desta perspectiva, fica reforçada a possibilidade de se tratar de uma instalação com fins não apenas residenciais, mas também militares, no sentido de guardar o caminho, integrando um conjunto de casas com esta mesma função.

Casa do Caxingui, antes do restauro. Autor Anônimocirca 1950 Acervo Fotográfico do Departamento do Patrimônio Histórico Secretaria da Cultura do Município de São Paulo

Casa do Caxingui, antes do restauro. Autor Anônimo       circa 1950       Acervo Fotográfico do Departamento do Patrimônio Histórico Secretaria da Cultura do Município de São Paulo

Pouco, ou nada, se sabe com certeza sobre a posse da propriedade antes do final do Século XIX. Trocando de mãos, passou da família Beu à família Penteado, e desta, em 1937, à Companhia City 2, nome pelo qual é conhecida a City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Limited, empresa fundada em 1912 e que participou ativamente do processo de desenvolvimento urbanístico da cidade de São Paulo.

A Companhia City, dentro do processo de loteamento e venda dessa zona da cidade, doou o imóvel à municipalidade no ano de 1958.

A iniciativa de recuperar a Casa do Caxingui foi de Paulo Florençano, conservador da Casa do Bandeirante, nome pelo qual ficou conhecida a Casa do Butantã, desde seu restauro e inauguração como museu no processo de comemoração do IV Centenário da Cidade de São Paulo.

“Em 1958, por ocasião do loteamento da área pela Companhia City, Florençano solicita da empresa loteadora a doação do terreno onde se situava a casa. Conservador da Casa do Bandeirante desde a inauguração daquele museu, ele procura Luís Saia para solicitar a colaboração do IPHAN na restauração da casa. A obra concretiza-se em 1967, através da Prefeitura de São Paulo, sob a orientação do IPHAN, e executada pela Construtora Adolpho Lindenberg.” 3

Em 1966 teve início o processo de restauro, que terminou em 1970, quando a Casa do Caxingui foi aberta ao público com o nome de Casa do Sertanista.

Situada em região ainda não totalmente urbanizada na década de 1940, hoje a casa se encontra completamente envolvida pela malha urbana.

Casa do Caxingui, depois do restauro. Foto: Dalton Sala2005

Casa do Caxingui, depois do restauro.       Foto: Dalton Sala 2005

A Casa do Caxingui se define em três lanços, com alpendres nos fundos e à frente; as paredes são em taipa de pilão e o telhado de quatro águas apresenta longas curvaturas; em seu aspecto geral, obedece a um esquema fechado e rígido, parecendo solidamente ligada ao chão em sua horizontalidade.

 Em 1972, ano de defesa de sua tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Júlio Katinsky escreve sobre a Casa do Caxingui:

“Caxingui, a cerca de 150 metros da margem direita do Córrego Pirajuçara, próximo à Avenida Francisco Morato, atual ‘Casa do Sertanista’ da Prefeitura Municipal de São Paulo, no bairro do Caxingui, loteado pela Companhia City, que doou os restos e uma área para a Prefeitura construir uma praça (Pasta IPHAN 03/8).

Há uma referência a esta casa na monografia acima citada do senhor Baptista Pereira 4, como sendo a casa dos pais do Padre Belchior de Pontes.

Entretanto, a sua identificação ocorreu devido a informantes locais, segundo Luís Saia, pois a casa ficava próximo ao caminho obrigatório para o Embu, local de importantes restaurações executadas pelo então SPHAN, no final da década de 30.” 5

Segue-se uma descrição da casa, incluindo medidas, e um relato da situação em que o professor Katinsky a encontrou durante seus estudos e pesquisa. 6

Em 2008, portanto 32 anos depois, Lia Mayumi escrevia que:

 “A inexistência de informações históricas precisas e mais aprofundadas possivelmente se deve ao não reconhecimento do valor histórico ao artístico do exemplar arquitetônico pelo órgão federal [IPHAN], que diversamente do caso dos exemplares tombados, coligiu informações até de épocas bem recuadas de monumentos como o Sítio Santo Antônio, a Casa do Padre Inácio e o Sítio Morrinhos.

Mesmo a instrução do processo de tombamento estadual é lacônica a esse respeito, resumindo-se a dois pareceres de Carlos Lemos, que se atêm aos aspectos arquitetônicos do edifício, acentuando que o seu valor deveria ser atribuído em relação ao universo total de exemplares de moradias chamadas bandeiristas, e não incidir sobre o imóvel isolado.” 7

 É evidente que pouco se avançou nesses pouco mais de trinta anos. De resto, é de se observar que o parecer do professor Carlos Lemos, conforme citado por Lia Mayumi, atenta para um ponto significativo, ou seja, a importância do conjunto das casas.

 A Casa do Caxingui foi tombada pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo – CONDEPHAAT em 28 de Dezembro de 1983 8 e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – CONPRESP em 5 de Abril de 1991 9.

1. A primeiras Atas da Câmara de Vila de São Paulo datam de 1560, o que sugere que neste momento a Câmara de Santo André tenha sido transferida para São Paulo; as povoações originais de Mogi das Cruzes (1560) e Santana de Parnaíba (1580) passaram à condição de vila em 1611 e 1625, respectivamente.

2. Informação disponível no sítio do Museu da Cidade da Secretaria da Cultura do Município de São Paulo: http://www.museudacidade.sp.gov.br/

3. MAYUMI, Lia. TAIPA, CANELA PRETA E CONCRETO: ESTUDO SOBRE O RESTAURO DE CASAS BANDEIRISTAS. São Paulo, Romano Guerra Editora, 2008, p. 109.

4. PEREIRA, Baptista. A CIDADE DE ANCHIETA. Revista do Arquivo Municipal: vol. XXIII, p. 1-123. São Paulo, Arquivo Municipal, maio de 1936, p. 49 e seguintes.

5. KATINSKY, Júlio Roberto. CASAS BANDEIRISTAS: NASCIMENTO E RECONHECIMENTO DA ARTE EM SÃO PAULO. São Paulo, Instituto de Geografia da Universidade de São Paulo, 1976, p. 15.

6. KATINSKY, Júlio Roberto. Obra citada, p. 74.

7. MAYUMI, Lia. Obra citada, p. 109-111.

8. Inscrição no Livro do Tombo Histórico nº 213; Processo 22264/82.

9. Resolução CONPRESP nº 05/91.

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