BRASIL: SÃO PAULO Itu CAPOAVA

De fazenda onde se produziam gêneros alimentícios destinados às Minas Gerais, a propriedade atravessou os ciclos do açúcar e do café, servindo depois como pasto, até chegar ao turismo rural de qualidade.

Atual sede de um hotel fazenda, essa antiga residência oferece a possibilidade de hospedagem em uma autêntica casa bandeirista, cujo caráter original foi preservado, apesar das modificações introduzidas para adequá-la ao novo uso.

Assim, o quarto de hospedes, à esquerda de quem chega no alpendre, foi transformado em sala de estar, enquanto a capela se mantém à direita, conforme a tradição paulista.

Situada a meia encosta, a casa domina um vale que termina num açude arrematado por encostas cobertas de mata. Por trilhas, chega-se a pontos elevados, de onde se avista o relevo, salpicado por formações rochosas características da região.

This house stands on a farm which formerly produced food to supply the needs of the population of Minas Gerais; the history of this property extends through the cycles of sugar and coffee, afterwards serving as pasture, to finally become a site for quality rural tourism.

Currently the headquarters of a farm hotel, this old residence offers the possibility of lodging at an authentic bandeirante house, whose original character has been preserved, despite the modifications introduced to adapt it to its new use.

Thus, the guest bedroom, to the left of the covered recessed entrance porch when looking at the front of the house, was transformed into a living room, while the chapel is on the right, according to the São Paulo tradition.

Situated halfway up the hill, the house dominates the valley that ends at a pond behind a dam flanked by forest-covered slopes. Trails lead the hiker up to high points were one gains a sweeping view of the terrain, peppered by the rocky formations characteristic of the region.

Casa Japão, antes do restauro e adaptação para hotel Casa Capoava Foto: Júlio Abe Wakahara1972

Casa Japão, antes do restauro e adaptação para hotel Casa Capoava       Foto: Júlio Abe Wakahara 1972

Casa da Capoava Foto: Tiago Sala2007

Casa da Capoava       Foto: Tiago Sala 2007

A Casa da Capoava foi também conhecida como Fazenda Japão, por ter abrigado imigrantes japoneses na primeira metade do Século XX.

 

Tornou-se convenção distinguir entre casas bandeiristas, conforme definidas por Luís Saia 1 e casas de tradição bandeirista, conforme definidas por Júlio Katinsky 2.

A diferença entre os dois procedimentos é muito bem colocada por Lia Mayumi:

“… a questão, portanto, não é buscar as origens do partido arquitetônico [das casas bandeiristas] nos modelos palladianos, portugueses ou espanhóis, mas sim compreender o partido a partir da análise estrutural da sociedade que condicionou o seu surgimento. Tal método de conhecimento, dado o seu princípio, permitiu ao pesquisador [Júlio Katinsky] desprender-se do paradigma do modelo ‘puro’ da casa bandeirista, para reconhecer valor histórico e artístico também em exemplares antes classificados como abastardados. Abastardamento maior, segundo a tese original, quanto maior o distanciamento do tipo ‘puro’.” 3

Dito de outra forma, a análise estrutural da sociedade implica em reconhecer as necessidades econômicas (infra-estruturais) que condicionam as formas-funções.

No caso da sociedade vicentina, a penetração no interior – seja por motivos de devassar o sertão, capturar índios, fazer guerras justas, procurar minas, destruir missões – levou a um partido específico que, respondendo ao espaço geográfico, às tradições do colonizador e ao contato com novas culturas, evolui no tempo e se adaptou às mudanças de condição.

Congregando as necessidades de defender o espaço colonial, abrigar a família e centralizar a produção agropecuária, essas casas acompanham uma trajetória que, vista com distância analítica, não é mais que um conjunto de rotas de comércio e de exploração econômica do território.

Assim, ao primeiro momento de reconhecimento, segue-se a necessidade de defesa contra a penetração de castelhanos a oriente do Paraná e do Paraguai.

Consolidado o território, e defendido o espaço geopolítico onde se acreditava haverem riquezas minerais, tratou-se de abrir as minas.

Encontradas as minas e iniciada a exploração, as casas se tornam sedes de grandes fazendas, especialmente na região de Itu e Sorocaba, de onde seguiam o gado de tração e os gêneros alimentícios destinados a abastecer as minas.

Acabado o ouro e reduzido o comércio, segue-se um período de relativa estagnação até que o café traga um novo alento, e um novo partido adaptado às novas necessidades.

Assim, o que se chamou de tradição bandeirista não é mais do que a adaptação de um partido às mudanças das condições de produção que, afinal, não mudou tão radicalmente a ponto de que essas casas não pudessem se adaptar a novas necessidades, como é o caso da Fazenda Japão, que foi centro de produção de açúcar e de café, abrigou imigrantes e hoje abriga um hotel fazenda, com as devidas e necessárias reformas à sua nova finalidade.

1. SAIA, Luís. MORADA PAULISTA. São Paulo, Perspectiva, 1972.

2. KATINSKY, Júlio Roberto. CASAS BANDEIRISTAS: NASCIMENTO E RECONHECIMENTO DA ARTE EM SÃO PAULO. São Paulo, Instituto de Geografia da Universidade de São Paulo, 1976.

3. MAYUMI, Lia. TAIPA, CANELA PRETA E CONCRETO: ESTUDO SOBRE O RESTAURO DE CASAS BANDEIRISTAS. São Paulo, Romano Guerra Editora, 2008.

Casa da Capoava: Capela       Foto: Tiago Sala2007

Casa da Capoava: Capela       Foto: Tiago Sala 2007

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