BRASIL: SÃO PAULO São Paulo BUTANTÃ

O terreno em que se encontra pertenceu à antiga sesmaria de Afonso Sardinha, explorador das primeiras minas de ouro de que se tem notícia no Brasil, as Minas do Jaraguá.

Na língua geral falada em São Paulo, “butantã” significava terra socada, ou seja, a taipa de que eram feitas as construções.

De planta quadrada, a casa do Butantã tem a frente voltada para oeste, onde originalmente passava o Rio Pinheiros. Dessa posição, dominava uma vasta extensão do rio, principal via de transporte e comunicação com Santo Amaro

Pouco adiante, o Pinheiros deságua no Tietê, então chamado Anhembi, pelo qual se navegava até São Miguel e Guarulhos. Através do Tamanduateí, afluente do Tietê, chegava-se ao Porto Geral, ao pé do outeiro onde ficava, e ainda fica, o Pátio do Colégio, centro histórico de São Paulo.

Restaurada por ocasião das comemorações do IV Centenário da fundação da cidade, essa antiga moradia foi rebatizada como Casa do Bandeirante.

The land on which this house sets was part of the original land grant conferred to Afonso Sardinha, who operated the first gold mines of record in Brazil, the Jaraguá mines.

In the indigenous language of that time, butantã meant “rammed earth” that is, the taipa (compacted soil, often with various admixtures) used as construction material.

The square-shaped Butantã House faces west, toward where the Pinheiros River then flowed. It therefore commanded a view of a long stretch of the river, then the main route of transport and communication with the settlement of Santo Amaro.

Not far downriver, the Pinheiros flows into the Tietê (at that time called the Anhembi), along which boats could navigate to São Miguel and Guarulhos. Along the Tamanduateí, another tributary of the Tietê River, boaters could reach Porto Geral, at the base of the hill on which stood and still stands the Pátio do Colégio, São Paulo’s historical center.

When the Butantã House was restored for the celebrations in honor of the 400th anniversary of the city’s founding, this ancient dwelling was rechristened as the Bandeirante House.

Casa do Butantã, antes de seu restauro. Autor desconhecidocirca 1945 Foto do Arquivo de Júlio Katinsky

Casa do Butantã, antes de seu restauro. Autor desconhecido circa 1945       Foto do Arquivo de Júlio Katinsky

“A Casa do Butantã, mais conhecida como Casa do Bandeirante, foi restaurada em 1954-1955, pela Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo. O projeto de restauração e a orientação técnica ficaram sob responsabilidade de Luís Saia, chefe do distrito o IPHAN em São Paulo. Benedito Pacheco, técnico contratado pela Comissão, ficou responsável pela direção da obra. Paulo Camilher Florençano, assistente de Guilherme de Almeida, presidente da Comissão, propôs instalar no imóvel um museu dedicado ao cotidiano rural do período bandeirista e dedicou-se para viabilizar a obra e depois mobiliar a casa e seu entorno com equipamentos domésticos dos séculos XVII e XVIII, tentando reproduzir um cenário de época. Inaugurada a casa, ele foi nomeado Conservador da Casa do Bandeirante, posto em que permaneceu pelo menos até Dezembro de 1963, ocasião em que Francisco Prestes Maia ocupava a cadeira de prefeito da cidade.” 1

Casa do Butantã, no curso do seu processo de restauração. Autor desconhecidocirca 1954 Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico Secretaria da Cultura do Município de São Paulo

Casa do Butantã, no curso do seu processo de restauração. Autor desconhecido      circa 1954       Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico Secretaria da Cultura do Município de São Paulo

Casa do Butantã: reinauguração como Casa do Bandeirante Autor desconhecidocirca 1955 Da esquerda para a direita: Afonso Taunay, Washington Luís, Guilherme de Almeida e Paulo Florençano.

Casa do Butantã: reinauguração como Casa do Bandeirante Autor desconhecido       circa 1955       Da esquerda para a direita: Afonso Taunay, Washington Luís, Guilherme de Almeida e Paulo Florençano.

Apesar de ter sido o responsável pelo restauro arquitetônico, Luís Saia assim se expressava, após a inauguração da Casa do Bandeirante:

“Depois de escrito o presente trabalho 2, outros exemplares deste tipo de habitação foram arrolados. Em São Paulo, ‘restos’ de uma no bairro da Casa Verde e a casa do Butantã, que foi restaurada para a Comissão do IV Centenário e convertida numa discutida e esdrúxula Casa do Bandeirante, cujo recheio é – coisas de política – quase totalmente mineiro.” 3

Casa do Butantã, depois de seu restauro.       Foto: Dalton Sala - 2005

Casa do Butantã, depois de seu restauro.       Foto: Dalton Sala – 2005

Um detalhe curioso da Casa do Butantã, conforme se encontra restaurada, é a presença de duas formas de janelas: com a verga reta e com a verga curva. Sinal de dois tempos ou capricho do restaurador?

A Casa do Butantã foi tombada pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo – CONDEPHAAT em 24 de Janeiro de 1983 4 e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – CONPRESP em 5 de Abril de 1991 5.

Também sabemos muito pouco sobre a Casa do Butantã: as terras onde foi construída pertenceram inicialmente a Afonso Sardinha e seus descendentes, que exploravam as primeiras minas de ouro de que temos notícia no Brasil; depois passaram por sucessivos e desconhecidos donos, até serem adquiridas pela Companhia City; finalmente, a Prefeitura Municipal de São Paulo adquiriu a casa com seu terreno circunvizinho, no objetivo de transformá-la em um museu; para isso foi restaurada por Luís Saia e lá está.

A inexistência de documentação é total. Mas, se considerarmos a própria casa como um documento, e sua implantação na paisagem como um testemunho, o que podemos inferir?

Antes da retificação do Rio Pinheiros, a casa tinha sua frente dando para o rio, que hoje passa pelos seus fundos.

Da Casa do Butantã se tem vista direta do Pico do Jaraguá; do Butantã, era possível sinalizar ao Jaraguá, e de lá ao centro da Vila de São Paulo, onde estava a Câmara.

Vista Aérea do Pico do Jaraguá2010       Foto: Wikimedia Commons

Vista Aérea do Pico do Jaraguá 2010       Foto: Wikimedia Commons

Além disso, a casa está muito perto da confluência do Anhembi com o Geribatiba (hoje Pinheiros).

Do outro lado do rio 6, entre esta confluência e a casa, está o ponto em que o Pirajuçara encontra o Geribatiba, ou seja, onde começa o caminho que, passando pelo Embu, leva aos campos de Curitiba e ao Guairá: com certeza que havia uma passagem fluvial nas cercanias; atrás da casa estava o aldeamento de Nossa Senhora dos Pinheiros e, do outro lado do rio, um pouco mais além, o aldeamento de Carapicuíba.

E, por sua posição, a Casa do Butantã guardava também o caminho fluvial que levava a Santo Amaro. 7

A verdade é que, entre os grandes medos dos paulistas, estava o temor de uma revolta indígena generalizada, repetindo os eventos de 1562, quando a Vila de São Paulo se viu sitiada por indígenas revoltados.

Havia também o temor de uma invasão de hereges, fossem eles franceses, ingleses ou holandeses. Finalmente, destruídas as povoações espanholas de Vila Rica e Ciudad Real, por que ignorar a possibilidade de um revide espanhol que viria pelo mesmo caminho pelo qual haviam ido os paulistas?

É assim, e portanto, que um sistema de defesa se edifica em torno do Planalto, guardando os rios e os caminho: as mesmas famílias que possuíam as terras, que financiavam as expedições, que escravizavam os índios, que comerciavam com Buenos Aires e com Assunção, que traficavam escravos para Potosi, vão dar à suas casas um caráter de fortificação, possivelmente com a ajuda de engenheiros militares, integrando-as em um sistema coletivo de defesa e garantindo a seus patriarcas o título de capitão que praticamente todos eles ostentavam.


1. MAYUMI, Lia. TAIPA, CANELA PRETA E CONCRETO: ESTUDO SOBRE O RESTAURO DE CASAS BANDEIRISTAS. São Paulo, Romano Guerra Editora, 2008, p. 77.

2. Não fica clara a datação proposta: o trabalho foi publicado em 1944, no nº 8 da Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O texto citado aparece em nota de pé de página em MORADA PAULISTA, p. 62. Ver BIBLIOGRAFIA para as sucessivas reedições do texto.

3. SAIA, Luís. NOTAS SOBRE A ARQUITETURA RURAL PAULISTA DO SEGUNDO SÉCULO. Morada Paulista: p. 61-117. São Paulo, Editora Perspectiva, 1978, p. 62.

4. Inscrição no Livro do Tombo Histórico nº 207; Processo 22262/82.

5. Resolução CONPRESP nº 05/91.

6. Lembrar que, com a retificação do Pinheiros, a casa trocou de margem: o rio antes passava à sua frente, hoje passa nos seus fundos. O Rio Jeribatuba (Pinheiros) nasce do encontro do rio Guarapiranga com o Rio Grande.

7. Um pouco mais além, onde hoje está o Parque Burle Marx, vestígios de uma grande construção em taipa fazem supor que havia outras casas guardando esse caminho.

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