PARAGUAI: PARAGUARI Yaguarón  FRANCIA

Situada no distrito de Yaguarón, departamento de Paraguari, a cerca de 50 quilômetros de Assunção.

Foi construída entre os anos de 1770 e 1780 pelo capitão José Engrácia Garcia de Francia, nomeado pela Coroa administrador de tabacos em Yaguarón; por essa razão acredita-se que seu filho, o Doutor José Gaspar Garcia Rodrigues de Francia – Ditador Supremo da República do Paraguai entre 30 de Outubro de 1814 e 30 de Maio de 1816, e Ditador Perpétuo da República do Paraguai entre 30 de Maio de 1816 e 20 de Setembro de 1840, quando faleceu – tenha passado nesta casa alguns anos de sua infância e adolescência.

A casa, construída em pedra e adobe, tem uma planta retangular em três lanços, bastante semelhante às casas paulistas, incluindo um alpendre (sem colunas de madeira e dando para um vasto quintal aos fundos) que liga dois aposentos com portas dando para o espaço coberto. À frente, um corredor com cobertura sustentada por colunas forma a típica varanda que, embora esteja afastada do caminho, caracteriza as povoações espanholas; a porta de entrada dá para uma sala principal, com dois outros aposentos laterais.

O partido que se apresenta na Casa de Francia, denominado culata jovai, embora encontrado também em edifícios urbanos, é típico do meio rural paraguaio; utilizado ainda hoje, sua principal característica é justamente um espaço aberto ligando dois espaços fechados, ou seja, um alpendre com dois aposentos opostos com portas dando para o espaço aberto, assim como nas casas paulistas o alpendre é ladeado por capela e quarto de hóspedes.

O Museu Histórico Gaspar Rodríguez de Francia foi inaugurado em 1968, sob a administração da Comissão Nacional da Casa da Independência; e, em 1984, passou a depender do Ministério da Educação e Cultura do Paraguai.

Located in the district of Yaguarón, in the department of Paraguari, approximately 50 km from Assunción.

It was built between 1770 and 1780 by captain José Engrácia Garcia de Francia, appointed by the Crown as tobacco administrator in Yaguarón; for this reason it is believed that his, the doctor José Gaspar Rodrigues de Francia – Supreme Dictator of the Republic of Paraguay from 30 October 1816, and Perpetual Dictator of the Republic of Paraguay between 30 May 1816 and 20 September 1840 when he died – may have spent some of the yearly years of his life in this house.

The house, built from stone and adobe, has a rectangular floor plan in three sections, very similar to that of the São Paulo houses, including a recessed porch (without wooden columns and overlooking a vast garden to the rear) that connects two bedrooms with doors onto a covered space. At the front a corridor with a roof supported by columns forms a typical balcony that, although it is distanced from the road, is characteristic of Spanish settlements; the main entrance leads into a main reception room, with two side bedrooms.

The architectural design that can be seen at the Francia House, known as culata jovai, although also found in urban buildings, is typical of rural areas of Paraguay; still used today, its main characteristic is specifically an open space linking two enclosed spaces, in other words, a porch with two mirror-image bedrooms that have doors onto the open space, and as in the São Paulo houses, the porch is flanked by a chapel and a guest bedroom.

The Gaspar Rodríguez de Francia Historical Museum was opened in 1968, under the direction of the National Commission of the Casa da Independência (House of Independence); and in 1984 it became the responsibility of the Paraguayan Ministry of Education and Culture.

Casa de Francia: vista frontal Foto: Tiago Sala2014

Casa de Francia: vista frontal       Foto: Tiago Sala 2014

Casa de Francia: janela (exterior). Foto: Tiago Sala2015

Casa de Francia: janela (exterior).       Foto: Tiago Sala 2014

Casa de Francia: janela (interior). Foto: Tiago Sala2015

Casa de Francia: janela (interior).       Foto: Tiago Sala 2014

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Capela da Casa do Padre Inácio.       Detalhes da balaustrada que separa a sacristia da nave.       Foto: Tiago Sala 2007.

Na comparação entre esta casa paraguaia e as casas paulistas ressaltam tanto as semelhanças como as diferenças.

Ambas foram construídas com terra, mas na casa paulista ressalta a taipa, e esta casa foi construída com adobes.

Uma diferença notável está nos ângulos dos beirais: enquanto na casa paulista estão apoiados em cachorros colocados em ângulo reto, os beirais da casa em Yaguarón se formam no prolongamento dos caibros, avançando além as paredes em ângulo agudo.

Por outro lado, a presença de um alpendre separando dois cômodos com portas opostas, da planta retangular, de detalhes como a maneira pela qual as vigas do telhado se apoiam nas paredes portantes, ou como a grande semelhança nas aberturas das portas e janelas, não só em sua estrutura, mas também no sentido da luz que essas aberturas produzem, tudo isso permite falar de sugestivas parecenças.

Missão de Caroya: vista interior de janela na lateral direita Foto: Dalton Sala2014

Missão de Caroya: vista interior de janela na lateral direita       Foto: Dalton Sala 2014

Não se trata de buscar congruências absolutas de formas e de técnicas, mas de demonstrar uma isomorfia relativa que, a partir de técnicas correlatas, configuram práticas construtivas plasmadas em meios sociais estruturados em continuidade.

Dito de uma forma específica, as sociedades coloniais portuguesa e espanhola, além de uma tradição construtiva ibérica, tinham em comum um grupo social – os colonos – com as mesmas necessidades de mão de obra indígena, sendo também ambas dependentes de uma agricultura de subsistência, movidas por similares necessidades de ascensão social e vivenciando conflitos paralelos com a administração colonial e com os padres jesuítas.

Esses dois grupos, colonos portugueses e castelhanos, a partir de determinado momento, passam a reconhecer um mesmo rei, o que significa na prática uma abolição das fronteiras já incertas determinadas pelo Tratado de Tordesilhas e uma aproximação que se realiza pela presença de portugueses em Assunção e de castelhanos em São Paulo.

Como consequência, surgiram necessidades e hábitos de morar (um programa) que podem, em termos teóricos, ser unificados por suas semelhanças (um partido); mas que na prática, se adaptam às condições locais e evoluem no tempo.

Essa evolução no tempo resulta em casas que, já na segunda metade do Século XVIII, mantém semelhanças estruturais que revelam ancestrais comuns, mas também diversidade de detalhes que testemunha a adaptação a condições especificas.

É nesses termos, e apenas nestes termos, que podemos aproximar casas como a Casa do Rosário, em Itu, e a Casa de Francia, em Yaguarón, construídas aproximadamente na mesma época, em locais distantes no espaço, mas com função econômica (administração de empresa agrícola vizinha a uma povoação de razoável importância política já no declínio do sistema mercantil) bastante similar.

A presença de detalhes construtivos similares nas estâncias jesuíticas à volta de Córdoba, na Argentina – locais na periferia geográfica de uma estrutura econômica onde se desenvolveu larga produção agropecuária a partir da primeira metade do Século XVII – parece confirmar essa hipótese de um meio social e econômico integrado por diversas atividades, desde o contrabando português centrado em São Vicente à criação de gado de tração para as minas de Potosi na estância jesuítica de Candelária.

Casa do padre Inácio: porta e janela do alpendre vistas do interior da sala principal Foto: Dalton Sala2004

Casa do padre Inácio: porta e janela do alpendre vistas do interior da sala principal       Foto: Dalton Sala 2004

Por diversas razões, os estudos da história das Américas no período em que os Felipes de Espanha retiveram a coroa de Portugal são bastante escassos e restritos, especialmente em língua portuguesa.

Aos diversos ressentimentos deixados pelas sequelas da dominação espanhola e pelas lutas portuguesas por independência, seguiram-se os nacionalismos americanos iniciados pelos movimentos de libertação dos jugos coloniais metropolitanos; depois aconteceu a fragmentação dos domínios espanhóis em diversas repúblicas sempre desconfiadas da monarquia brasileira, as disputas de fronteiras e as guerras entre as jovens nações, das quais a Guerra do Paraguai se destacou por sua brutalidade, deixando profundas sequelas.

Se a primeira metade do Século XX foi dominada pelo conceito de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que teve a curiosa capacidade de tentar incorporar ao nacional aquilo que era evidentemente internacional, como as missões jesuíticas, na segunda metade do Século XX, superando o conceito de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, surgiu o conceito de Patrimônio Cultural da Humanidade, permitindo abordagem mais ampla daquilo que, culturalmente, transborda das fronteiras nacionais, como é o caso da arquitetura colonial latino-americana.

Infelizmente, os hábitos intelectuais acadêmicos e principalmente a rigidez dos órgãos institucionais dedicados à preservação do patrimônio ainda não acordaram para essa nova realidade.

Necessitamos também de estudos que incorporem a cultura imaterial – uma história dos hábitos, das práticas e dos procedimentos – ao estudo e à preservação dos bens culturais materiais, as obras de arte, que dissociadas de seus contextos sociais, só podem ser compreendidas do ponto de vista de um esteticismo duvidoso associado a um turismo de superfície.

A história das moradias coloniais está apenas começando e já está impregnada de preconceitos e de velhos métodos, onde se destaca a falta de interesse pela arquitetura popular, em benefício de uma grande arquitetura senhorial: opção fácil, na medida em que da casa grande sobram mais exemplares visíveis do que da arquitetura popular, embora uma não possa ser explicada sem a outra e a arquitetura popular sobreviva na forma de vestígios materiais e de práticas concretas.

Apenas uma sociologia da arte capaz de operar no campo de uma cultura colonial americana unificada pela percepção de uma estrutura social comum aos colonos do novo mundo ibérico poderá esclarecer mais amplamente as semelhanças e as diferenças entre um conjunto mais amplo de moradias.

Casa de Francia: vista da lateral esquerda Foto: Tiago Sala2015

Casa de Francia: vista da lateral esquerda       Foto: Tiago Sala 2014

Casa do Pau d’ Alho: lateral esquerda. Foto: Tiago Sala2007

Casa do Pau d’ Alho: lateral esquerda.       Foto: Tiago Sala 2007

Casa da Rassaca: lateral direita. Foto: Tiago Sala2007

Casa da Rassaca: lateral direita.       Foto: Tiago Sala 2007

Estância de Candelária, Córdoba, Argentina Janela na parede do Claustro dos Padres Foto: Dalton Sala2014

Estância de Candelária, Córdoba, Argentina Janela na parede do Claustro dos Padres       Foto: Dalton Sala 2014

Estância de Candelária, Córdoba, Argentina Parede da fachada do Claustro dos Padres Foto: Dalton Sala2014

Estância de Candelária, Córdoba, Argentina Parede da fachada do Claustro dos Padres       Foto: Dalton Sala 2014

Casa do Rosário Janelas da parede lateral direita. Foto: Dalton Sala 2002

Casa do Rosário Janelas da parede lateral direita.       Foto: Dalton Sala 2002

Casa do Rosário Janelas da parede lateral direita. Foto: Tiago Sala2007

Casa do Rosário Janelas da parede lateral direita.       Foto: Tiago Sala 2007

P.S.: Caso curioso da incorporação de um segmento de patrimônio arquitetônico internacional em patrimônio histórico e artístico nacional e depois novamente em patrimônio cultural internacional é caso dos Sete Povos das Missões (Santo Ângelo, São João Batista, São Miguel Arcanjo, São Lourenço, São Luís Gonzaga, São Nicolau e São Francisco de Borja); segmentação paralela ocorre na Argentina, no Paraguai e na Bolívia, onde as missões jesuíticas são consideradas sob a égide do /nacional/.

Antes em domínios espanhóis e hoje em território brasileiro, os Sete Povos passaram a integrar o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Brasileiro em 1938, quando foram tombadas as ruínas da igreja de São Miguel; em 1983, a missão de São Miguel foi declarada patrimônio cultural da humanidade.

Como exemplo de velhas práticas impregnando novos conceitos, a UNESCO reconhece hoje como Patrimônio Cultural da Humanidade (World Heritage Sites) algumas missões jesuíticas, como São Miguel no Brasil, Alta Gracia e San Ignacio Mini na Argentina, Trinidad no Paraguai, mas não reconhece o conjunto dessas missões.

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