BRASIL: SÃO PAULO  São Paulo  RESSACA

A casa fica nas cercanias do córrego de mesmo nome, perto do antigo caminho que levava a Santo Amaro, uma das principais vias de acesso ao Planalto de Piratininga, vindo do litoral.

Na verga de sua porta principal, está gravado o ano de 1719. Construída em taipa de pilão, tem telhado de duas águas e paredes internas originalmente de pau a pique.

Embora menor que as casas do Padre Inácio e de Santo Antônio, o imóvel apresenta os elementos característicos da arquitetura colonial paulista: o alpendre colado à parede de arrimo lateral é semelhante ao que se encontra no Caxingui; o telhado de duas águas assemelha-se ao do Tatuapé e ao do Pau d’Alho e o sótão lembra o de Parnaíba.

Sua posição estratégica em relação às águas e aos caminhos, ou seja, o domínio da paisagem e seus recursos também indicam que se trata de implantação bandeirista.

This house is located near the Ressaca Stream, near the old road that led to Santo Amaro, one of the main accesses to the Piratininga plateau, coming up from the coast.

Its door frame bears the engraved numeral of the year “1719”. Constructed of rammed earth, it has a dual-pitched roof and wattle and mud inner dividing walls.

Although smaller than the Padre Inácio and Santo Antônio houses, it displays the other elements characteristic of São Paulo’s colonial architecture: the recessed porch hemmed in on one side by the house’s extended lateral support wall is similar to that of the house in Caxingui; the roof consisting of two sloping sides is similar to that of the houses in Tatuapé and Pau d’Alho, and the attic resembles that of the Parnaíba House.

Its strategic position in relation to the waters and the roads, that is, its commanding view of the landscape and its resources also indicates that it was a bandeirante house.

Com data de 16 de Outubro de 1937, Mário de Andrade enviou, de São Paulo, a Rodrigo Melo Franco de Andrade, no Rio de Janeiro, o seu Primeiro Relatório como assistente técnico da Sexta Região –São Paulo – da Diretoria do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ainda funcionando informalmente. 1

“Arquitetura Civil em São Paulo: A bem dizer, não existe na capital de São Paulo mais nenhum prédio de residência que se conserve digno da atenção federal. Um serviço estadual, a meu ver, especioso, poderá tombar alguns prédios destes, porém será mais empecilho que guarda de tradição. Propriedades como a casa velha do Tatuapé, propriedade de Elias de Albuquerque, que pertenceu a Melo Franco, pai da condessa de Rio Claro; a casa velha da Vila Leopoldina, perto da balsa do Tietê, lado esquerdo, em cujo forro se teria achado uma escritura de Afonso Sardinha; a casa velha do Caxingui, Pinheiros, à margem do Pirajuçara, que a tradição diz ter pertencido ao padre Belchior de Pontes; a casa da Marquesa dos Santos à Rua do Carmo, onde atualmente está instalada a Companhia de Gás, e em que viveu um tempo a aristocracia do clero paulista, palácio episcopal que foi – edifício aliás bem conservado em sua fachada do século XVIII, pois que pertenceu ao brigadeiro Joaquim José Pinto de Morais Leme, de quem a marquesa o adquiriu em 31 de Maio de 1834; a casa colonial em Vila Maria (Cidade Jardim) propriedade de Rafael Vidal; a casa velha do bairro do Limão, pertencente agora ao doutor Francisco Perucci, onde se encontravam a marquesa de Santos e Pedro I; o sobradão colonial do Padre Feijó, na Água Rasa, onde vive atualmente o Instituto Anália Franco, cuja capelinha ainda guarda imagens e a pia batismal dos tempos de Feijó, e, afirmaram, ainda existem instrumentos agrícolas e restos da primitiva plantação de chá; a casa de Couto Magalhães na Ponte Grande, atualmente sede duma associação esportiva, com seu desengonçado torreão, encimado por cúpula metálica , onde esteve um telescópio; e que guarda ainda nas cimalhas as iniciais do general, dos tempos em que foi presidente de província; a casa velha do Jabaquara, que se chamou ‘sítio da Ressaca’ nos tempos em que pertenceu ao padre Domingos Gomes Albernás, que ali mantinha 80 cabeças de gado em 1694, edifício que trás na fachada a data de 1719; a casa-grande do Anastácio, colonial, onde se hospedou Pedro II; a residência do Brigadeiro Luís Antônio de Souza, na esquina da rua José Bonifácio com a de São Bento, em cuja parte térrea está agora a Mercearia carioca, onde parava o Brigadeiro em 1818 e depois o barão de Souza Queiroz; o sobrado da rua de Santo Amaro, colonial, propriedade que foi do negociante Borba Cujo (sic), e onde se instala um dos maiores cortiços de São Paulo; a residência do padre Ildefonso, na esquina da praça João Mendes, em frente à igreja dos Remédios, onde viveu esse independentíssimo sacerdote – o que no dia da Independência gritou no Teatro da Ópera: ‘Viva o primeiro rei brasileiro!’; e ainda a casa do doutor João Mendes, na praça deste nome… Edifícios tais, estão completamente deformados muitos, outros menos, têm interesse histórico mais estadual do que nacional propriamente; quase nenhum, ou nenhum interesse artístico. Cumprirá sempre fotografá-los, tomar-lhes detalhes de construção, e pormenores da técnica de construção, para estudo. Não parece porém ao Assistente Técnico mereçam do SPHAN os cuidados do tombamento federal.” 2

A Casa Velha do Jabaquara, hoje totalmente restaurada, está situada à meia encosta de uma colina, próxima ao Córrego da Ressaca (anteriormente conhecido como Córrego do Barreiro), junto ao caminho que, vindo do Ipiranga, se dirigia ao litoral sul de São Paulo: no Barreiro, o caminho se dividia, à esquerda descendo para o sul de São Vicente, à direita passando por Santo Amaro, M’ Boi Mirim e M’ Boi Guaçu, inciando em Parelheiros uma descida que ia dar ao sul de Peruíbe. 3

 Além da inscrição 1719 na verga de sua porta principal, os trabalhos de arqueologia realizados durante seu processo de restauração revelaram, além de numerosos objetos e utensílios, telhas do Século XVIII, com data de fabricação e nome do oleiro; acredita-se que essas telhas, assim como as portas e batentes em canela preta possam ser originais, mas isso não exclui o fato de que a ocupação do sítio é bem mais antiga, datando do Século XVI.

 Já no Século XIX, temos notícias de que uma mata nas proximidades do Córrego da Ressaca serviu de abrigo para escravos fugidos, mas essa tradição não é precisa, pois não determina nem data nem local exato, nem apresenta qualquer documentação. 4

 Em 1908, Antônio Cantarella adquiriu as terras e promoveu a urbanização de parte da região que hoje é conhecida como Jabaquara, transformando a Casa da Ressaca em chácara que foi utilizada por sua família até 1970.

Nesse momento, uma parte significativa do terreno, cerca de um terço, foi desapropriado para a instalação de um pátio de manobras para a linha norte-sul do Metrô.

Em seguida, também a casa e o terreno à sua volta foram  desapropriados, dando origem a um centro cultural e a uma praça; e, 1978 teve início o processo de restauração do imóvel histórico, coordenado pelo arquiteto Antônio Luiz Dias de Andrade 5, e concluído em 1979.

Casa da Ressaca, antes de sua restauração. Autor desconhecido (Benedito Junqueira Duarte?)sem datas Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico Secretaria da Cultura do Município de São Paulo

Casa da Ressaca, antes de sua restauração.       Autor desconhecido (Benedito Junqueira Duarte?)       sem datas Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico Secretaria da Cultura do Município de São Paulo

Casa da Ressaca, antes de sua restauração. Autor desconhecido (Benedito Junqueira Duarte?)sem datas Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico Secretaria da Cultura do Município de São Paulo

Casa da Ressaca, antes de sua restauração.       Autor desconhecido (Benedito Junqueira Duarte?)       sem datas Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico Secretaria da Cultura do Município de São Paulo

Casa da Ressaca, depois de sua restauração. Foto: Tiago Sala2007

Casa da Ressaca, depois de sua restauração.       Foto: Tiago Sala 2007

A Casa da Ressaca foi tombada pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo – CONDEPHAAT em 18 de Outubro de 1972 6 e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – CONPRESP em 5 de Abril de 1991. 7

1 O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional passa a funcionar de forma efetiva por meio do decreto lei no. 25, de 30 de Novembro de 1937, publicado no Diário Oficial da União a 6 de Dezembro de 1937 e republicado a 11 do mesmo mês e ano, um dos primeiros da recém-instalada ditadura.

2 ANDRADE, Mário. CARTAS DE TRABALHO: CORRESPONDÊNCIA COM RODRIGO MELO FRANCO DE ANDRADE: 1936-1945. Brasília, Ministério da Educação e Cultura, 1981, p. 86-88. (Grifos de Dalton Sala.)

3 É evidente que esses caminhos principais possuíam numerosas ramificações.

4 É possível que haja alguma confusão com o Quilombo do Jabaquara, em Santos.

5 Mais conhecido como Janjão.

6 Inscrição no Livro do Tombo Histórico nº 67; Processo 00190/72.

7 Resolução CONPRESP nº 05/91.

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