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Casa do Vergueiro       Foto: Washington Luís 1910

BRASIL: SÃO PAULO  São Paulo  VERGUEIRO

Casa histórica situada na antiga Estrada do Vergueiro, foi fotografada por Washington Luís poucos dias antes de ser derrubada, em 1910.

Estrada do Vergueiro foi a designação que a antiga Estrada da Maioridade recebeu, após ser reformada entre 1862 e 1864, sob a orientação do comendador José Pereira de Campos Vergueiro, um dos filhos do senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro 1, grande fazendeiro e comerciante de café de São Paulo.

A Estrada do Vergueiro seguia por uma variante do Caminho do Mar que, passando pelo Ipiranga, afastava-se do Rio Tamanduateí e cortava o Planalto na direção de São Bernardo, seguindo até o Rio Grande, onde acompanhava o rio até suas nascentes, para depois transpor a Serra do Mar pelo caminho que, depois de calçado com pedra, se chamou Calçada do Lorena.

Com a Estrada da Maioridade, construída em 1844, a serra passou a ser vencida pelo que depois se chamou Estrada Velha de Santos, pavimentada com concreto em 1917.

A historic house located on the former Estrada do Vergueiro road, which was photographed by Washington Luiz just a few days before being demolished in 1910.

The Estrada do Vergueiro was the name given to the former Estrada da Maioridade road, after it was modified between 1862 and 1864, under the direction of commander José Pereira de Campos Vergueiro, one of the sons of Senator Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, an important São Paulo coffee trader and plantation owner.

The Estrada do Vergueiro road followed a variant of the Caminho do Mar trail that, passing through Ipiranga, moved away from the Tamanduateí River and cut across the Plateau towards São Bernardo, going as far as Rio Grande, where it followed the river to its sources, to then cross the Serra do Mar mountain range following the route that after being paved was called the Calçada do Lorena trail.

With the construction of the Estrada da Maioridade road in 1844, the mountain range was passable via what was later called the Estrada Velha de Santos road, paved in concrete in 1917.

OS CAMINHOS DO MAR (texto de 1998)

 1. A subida da Serra do Mar está ligada aos princípios mitológicos de nossa história. É possível que João Ramalho já tivesse se instalado em Paranapiacaba, que é o lugar de onde se avista a grande água, nos primeiros anos da segunda década do Século XVI.

Era ali a primeira borda dos Campos de Piratininga, que é o lugar onde o peixe seca, onde o peixe fica preso em lagoas formadas pelas enchentes dos muitos cursos d’água que transbordam, formam lagoas transitórias que desaparecem na estação das secas, daí a idéia do seca-peixe em língua tupi.

No Planalto de Piratininga corre central o Tietê, aliás Anhembi, o caminho de Anhangá, cuja situação atual é de desastre ecológico, histórico e cultural.

Pode-se, com justiça, dizer que foi a partir do planalto de Piratininga que se iniciou a penetração no interior da América portuguesa. Assim, a Serra do Mar não é apenas um fato geográfico, mas também um fato social.

2. Fernão Cardim, que fez a subida da serra em 1585, acompanhando um visitador da Companhia de Jesus, Padre Cristóvão Gouveia, diz que a viagem levou quatro dias e, em suas próprias palavras, “o caminho era tão íngreme que às vezes íamos pegando com as mãos”.

Conta, também, que “todo o caminho é cheio de tijucos, o pior que nunca vi, e sempre íamos subindo e descendo serras altíssimas e rios caudais de água frigidíssima”.

3. As trilhas indígenas eram um conjunto natural e dinâmico de acessos ao planalto. No quadro de uma proposta ecológica, não é impossível reencontrar esses caminhos. Historicamente, são muito importantes.

Martim Afonso de Souza chegou a São Vicente em 1532 e, logo em seguida, transpôs a Serra de Paranapiacaba, procurando minas de ouro e de pedras preciosas e, ainda segundo Capistrano, criou outra vila no planalto.

Quando subiu ao planalto habitavam naquelas terras João Ramalho e Antônio Rodrigues, e não eram os únicos. Em 1532 se declararam estantes havia 15 e 20 anos na sesmaria concedida por Martim Afonso a Pero de Goes.

Temos uma menção às trilhas indígenas de acesso ao planalto, sempre associadas à figura de Ramalho, por parte de Gabriel Soares de Souza, em suas Notícias do Brasil, datadas de 1587, quando se refere à capitania de São Vicente: “pelo sertão desta capitania nove léguas está a vila de São Paulo, onde geralmente se diz ‘O Campo’, em a qual vila está um mosteiro dos padres da Companhia, e derredor dela quatro ou cinco léguas estão quatro aldeias de índios forros cristãos, que os padres doutrinam, e servem-se desta vila para o mar pelo esteiro do Ramalho”.

Assim, as trilhas indígenas, antecessoras do Caminho do Mar, estão indissociavelmente ligadas à figura de João Ramalho e aos primeiros momentos da História do Brasil. Acho que mais não é necessário dizer sobre a sua importância.

4. A Calçada do Lorena, depois de quase três séculos, substituiu a precariedade das trilhas por um verdadeiro projeto de engenharia: as obras iniciaram-se em 1792 e concluíram-se em 1798, por iniciativa do governador da capitania de São Paulo, Capitão-general Bernardo José Maria de Lorena.

Coube aos oficiais do Real Corpo de Engenheiros conceber uma obra em pedra, com traçado sinuoso capaz de permitir a passagem de tropas de mulas e vencer os aclives muito acentuados.

Os engenheiros militares portugueses formavam um corpo de elite, uma vanguarda técnica, graças à sua primorosa instrução e ao contato com os centros europeus mais desenvolvidos, pois engenheiros estrangeiros são, com frequência, contratados para prestar serviços a Portugal.

Temos grande tendência a subestimar a capacidade técnica dos portugueses: a Calçada do Lorena poderia, à época, rivalizar com estradas europeias e era, possivelmente, a melhor estrada do Brasil.

Tinha por objetivo facilitar o comércio e o transporte de mercadorias entre a baixada e o planalto. Foi por este caminho que Dom Pedro I subiu de Santos a São Paulo, por ocasião dos acontecimentos que levaram à independência do Brasil.

Alguns trechos de seu percurso em pedra ainda podem ser encontrados escondidos em meio à densa vegetação.

5. Iniciada em 1840, a Estrada da Maioridade, homenagem a Dom Pedro II, deveria permitir a passagem de carros a tração animal, ou seja, escoamento de café e de açúcar.

Aberta ao tráfego em 1841, em 1867 foi iniciado o tráfego ferroviário entre o planalto e o litoral. Com a estrada de ferro Santos-Jundiaí a funcionar, a Estrada da Maioridade, redesenhada por Vergueiro, caiu em desuso, sendo parte de seu traçado, entre Cubatão e Santos, cedido ao uso do Caminho de Ferro.

 6. Em 1913, o engenheiro Rudge Ramos construiu uma estrada entre São Paulo e o Alto da Serra, chamada Caminho do Mar: o empreendimento é financiado com a cobrança de pedágio. Neste mesmo ano o conselheiro Rodrigues Alves macadamizou a estrada e, em 1925, Carlos de Campos pavimentou o trecho da serra.

Os monumentos que estão no Caminho do Mar (o Pouso de Paranapiacaba, o Belvedere, o Rancho da Maioridade, o Padrão do Lorena, o Pontilhão da Raiz da Serra e o Cruzeiro Quinhentista) devem-se a Washington Luís, por ocasião do Primeiro Centenário da Independência.

 7. Não só pela exuberância da natureza, pelas constantes brumas e nevoeiros, a Serra do Mar, cortada por esses caminhos dos quais estamos falando, está envolvida por uma aura de mistério que vem do desconhecimento de sua história.

Em Portugal, nos arquivos de documentos, repousam muitas informações sobre episódios históricos ligados à subida da serra, à fazenda dos jesuítas em Cubatão, às obras de conservação constantemente necessárias para a manutenção dos acessos e às diversas demandas sobre impostos, materiais e mão-de-obra que eram solicitados pela Câmara de São Paulo.

 8. Infelizmente, o estado atual destes monumentos é uma vergonha para os brasileiros e, principalmente, para os paulistas. A Calçada do Lorena, apesar dos avisos e proibições em contrário, vem sendo utilizadas por motociclistas, sendo evidentes as marcas da tração dos pneus nas pedras centenárias.

O monumento do Pico, provavelmente projeto de Victor Dubugras, exibe a falta de alguns de seus detalhes, três placas de bronze com inscrições comemorativas, cuja ausência permite ver sua estrutura interna de tijolos.

O Pouso de Paranapiacaba, logo no início da descida do Caminho do Mar, está em fase de desenvolvida degradação, mostrando avançado apodrecimento das estruturas de madeira do telhado.

O Cruzeiro Quinhentista, já em Cubatão, foi envolvido pela urbanização irracional, e teve seu espaço invadido por pistas para automóveis.

 9. Dramática. Cubatão é um fato industrial irreversível. Não só sobre a serra, mas também sobre o mangue – que juntos formam um único complexo ecológico – o impacto da poluição industrial tem sido impressionante, indescritível; e as poucas medidas tomadas se mostram insuficientes.

O custo da prevenção deste impacto, rejeitado pelas empresas poluidoras, é lançado sobre a sociedade, na forma de grandes danos ao meio ambiente e aos seres humanos.

Está na hora de grandes empresas, como a Petrobrás, que destruiu trechos da Calçada do Lorena na instalação de sua refinaria em Cubatão, tomarem consciência dos danos causados e agirem, investindo na preservação conjunta da natureza e da história que se conjugam no Caminho do Mar.

Neste ponto, é interessante lembrar que, ao contrário do que se pensa, a Coroa Portuguesa tinha certas preocupações com o meio ambiente, em especial com a extinção de espécies vegetais, entenda-se madeiras-de-lei.

Penso que o projeto de um Parque do Caminho do Mar, com o objetivo de preservar a natureza e recuperar a história, é uma proposta de primeira grandeza, capaz de dar um sentido à preservação ecológica e cultural da Serra do Mar.

 

1 Um outro filho do Senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro foi Nicolau de Campos Vergueiro, Visconde de Vergueiro, patrono de Benedito Calixto.

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