BRASIL: SÃO PAULO São Roque SANTO ANTÔNIO

Foi construída, em cerca de 1640, por Fernão Paes de Barros, em terras que recebeu de seu pai, Fernão Vaz de Barros, tendo sido ambos ativos bandeirantes nas guerras que os paulistas moveram contra as missões dos jesuítas castelhanos.

Situada a meia encosta, a casa se destaca na paisagem por sua ampla dimensão e equilíbrio de proporção. De seu alpendre, vê-se um açude e a mata que cobre a margem oposta.

Internamente, a telha-vã deixa vazar a luz, dando a perceber a estrutura do telhado apoiado sobre paredes grossas. A largueza do espaço interno permite que dois cômodos tenham jiraus de madeira sustentados por colunas da mesma lavra das que estão no alpendre.

Pouco distante da residência, a capela foi construída depois de 1681, ano em que se pediu licença para erguê-la. A entrada nesse gracioso edifício se dá pelo alpendre, cruzando-se a porta inserida na fachada de madeira, cujas treliças e gradeados criam um jogo luminoso.

No interior, o púlpito exibe a águia bicéfala, símbolo dos reis de Espanha que foram soberanos do Brasil entre 1580 e 1640; em cada lado da nave, dois retábulos engastados nas paredes são prováveis espólios dos ataques bandeiristas às missões jesuíticas; o forro é pintado e o altar-mor mostra talha com características da lavra espanhola.

Mario de Andrade adquiriu a propriedade em 1944, pouco antes de sua morte. Por vontade testamentária, após 1945, Santo Antônio passou a pertencer ao IPHAN.

The house at Sítio de Santo Antônio estate was constructed around 1640 by Fernão Paes de Barros, on land he received from his father, Fernão Vaz de Barros; each of these owners fought in the wars the São Paulo bandeirantes waged against the Spanish Jesuits.

Situated halfway up a hill, the house is striking for its large size and balanced proportions. Its recessed front porch offers a view of a pond and the woods that cover the opposite side.

Inside the house, light filters through the tiled roof into the ceilingless main room, allowing a view of the wooden roof structure supported by the thick walls. The internal space is ample enough to allow for each of the two side rooms to have lofts suspended by wooden columns of material and workmanship similar to those of the porch.

Situated near from the residence, the chapel was constructed after 1681, the year in which the building permit for it was requested. One enters the chapel from its front porch, through the main door located on the wooden façade whose trellises and decorative gratings establish a lovely interplay of light and shadow.

Inside, the pulpit displays the two-headed eagle, the symbol of the Kings of Spain (the Habsburgs) who were also the sovereigns of Brazil from 1580 to 1640; on each side of the nave, two retables set into the walls are probably the spoils of attacks on the Jesuit missions; the ceiling is painted and the high altar displays carvings of Spanish-like workmanship.

Mario de Andrade acquired the property in 1944, a little before his death. According to his will, after 1945, the Sítio de Santo Antônio became property of IPHAN.

Jirau no interior da casa do Sítio de Santo Antônio Foto: Tiago Sala - 2007

Jirau no interior da casa do Sítio de Santo Antônio       Foto: Tiago Sala – 2007

O açude visto do interior da capela do Sítio de Santo Antônio Foto: Tiago Sala - 2007

O açude visto do interior da capela do Sítio de Santo Antônio       Foto: Tiago Sala – 2007

Detalhe de um dos retábulos laterais da capela do Sítio de Santo Antônio Foto: Tiago Sala - 2007

Detalhe de um dos retábulos laterais da capela do Sítio de Santo Antônio       Foto: Tiago Sala – 2007

O conjunto do Sítio de Santo Antônio, casa e capela, é o único testemunho direto que nos sobrou dos tempos das excursões paulistas contra as missões dos padres jesuítas vindos de Assunção.

Não só pela data provável de sua primeira construção, mas ainda pelo fato de que seus primeiros proprietários estiveram diretamente envolvidos nessas expedições.

Assim, e apesar das muitas reformas e intervenções, sua volumetria e dimensões, sua relação com a paisagem e os caminhos, nos dão uma provável medida da pujança dos proprietários de terras, escravos e fazendas na primeira metade do Século XVII.

Pelo que podemos entender pelos poucos vestígios remanescentes, essa casa integrava um complexo maior, que inclui a Casa do Querubim, São Romão (hoje em Araçariguama), Santana de Parnaíba (onde só restou parte de uma casa urbana), uma casa urbana dentro de São Roque que desapareceu, a casa (hoje totalmente reformada e desfigurada) e a capela da fazenda de Nossa Senhora da Conceição de Voturuna, e uma casa à quase beira da Rodovia Castelo Branco que serve como restaurante, mas não disfarça a sua geometria, onde as grossas paredes e o alpendre à entrada dão a tônica.

Nas imediações, entre Araçariguama e a Casa do Querubim, está a grande e misteriosa estrutura de um forno, cujas dimensões permitiriam, para além da cal, fundir o ferro que a tradição e alguns documentos sugerem haver sido extraído da vizinha Serra de Voturuna.

Forno de Cal: detalhe das aberturas. Foto: Dalton Sala - 2007

Forno de Cal: detalhe das aberturas.       Foto: Dalton Sala – 2007

O Sítio de Santo Antônio, casa e capela, também foi visitado por Washington Luís, no ano de 1921, “ocasião em que o prestigioso político e historiador teria decidido remover dois tocheiros antropomórficos para o Museu Paulista” 1.

 

Tocheiros Antropomórficos Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo Foto: Rômulo Fialdini - 1991

Tocheiros Antropomórficos Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo       Foto: Rômulo Fialdini – 1991

A Constituição Federal de 1934 iniciou em âmbito nacional a proteção legislativa ao patrimônio histórico e artístico brasileiro. Além do artigo 148, a alínea III do artigo 10 declara que “compete concorrentemente à União e aos Estados… proteger as belezas naturais e os monumentos de valor histórico ou artístico, podendo impedir a evasão de obras de arte” 2.

Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, tomou a iniciativa dos estudos para a elaboração de um projeto da lei federal que regulamentasse aquele preceito constitucional. Como consequência o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional começou a funcionar provisoriamente a 19 de Abril de 1936.

Esse funcionamento foi autorizado por Vargas, atendendo a um pedido de contratação de pessoal formulado por Capanema a 13 de Abril. Nesse mesmo pedido o Ministro afirmava que “a obra deve ser empreendida desde já, tomando-se por base e roteiro o trabalhos do senhor Mário de Andrade” 3.

O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional passou a funcionar de forma efetiva por meio do decreto lei no. 25, de 30 de Novembro de 1937 4, publicado no Diário Oficial da União a 6 de dezembro de 1937 e republicado a 11 do mesmo mês e ano, um dos primeiros da recém-instalada ditadura.

 Em 1936, portanto ainda antes do decreto que formalizaria, no ano seguinte, a instituição o do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Serviço já estava funcionando. E, em São Paulo, Mario de Andrade dava provas de grande entusiasmo e felicidade, conforme carta datada em São Paulo a 27 de Setembro de 1936, dirigida a Rodrigo Melo Franco de Andrade

“E vamos por esse mundo à procura das ruínas de Santo André da Borda do Campo, da primeira forja do Brasil que ficou por aqui, etc. E está visto que, todos poetas em estado de descanso exaltado, descobrimos casas de bandeirantes e outras loucuras. E está claro que coisas bonitas também.” 5

E, em seguida, a 12 de Junho de 1937, entrava em cena o Sítio de Santo Antônio:

“Acabo de fazer a segunda viagem de perfuntória pesquisa, pelos arredores de São Paulo. Viagens penosíssimas, principalmente a de hoje, pois se trata de pesquisa de capelas e casas-grandes históricas, Desconfio que a coisa terá de ir com muita lentidão. São Paulo não é como Minas que pode salvar grandezas de arte, e a rebusca aqui implica constantemente a saída de rodovias por verdadeiros trilhos de índio, mesmo aqui pelo arredor da capital. Talvez, aliás, principalmente aqui. Ora já na viagem anterior, tivemos que abandonar vários lugares, por inatingíveis. Hoje não pudemos chegar nem até Caraguatatuba, mas ganhamos dia todo em São Roque. Ruínas, ruínas, ruínas, que francamente não sei se conviria ao Governo Federal (bem entendido: por estarmos num país miserável de dinheiro e de pouca cultura) tomar conta com o reforçamento e conservação destas ruínas. Está claro que a coisa pode se harmonizar em São Paulo… o rico (!) de várias maneiras. Vamos ter aqui lei idêntica e porventura mais completa que a do Governo Federal, Portanto o Estado terá que cuidar também dessas coisas, e já estou imaginando um jeito do Governo do Estado tombar por si e para nós, coisas como a casa-grande do bairro de Pinheiros em São Roque, exemplar raro de solução arquitetônica colonial, com uma capelinha com uma pintura de extremo interesse. Outra via que iniciamos esta semana e de que já lhe dei notícia é a proteção dos ricos. Aqui vai o primeiro artigo da campanha iniciada. Na próxima semana escreve o Taunay e na terceira, hélas! Se tiver tempo eu, e já tem outras pessoas apalavradas. O primeiro artigo causou grande impressão e o rico homem Numa de Oliveira já foi conversado. Temos uns cinco ou seis ricos homens em vista. Com uns quinhentos contos conservaremos provavelmente algumas coisas como M’Boi. Outra iniciativa, foi a que tomamos hoje, aliás sem mérito nosso senão na ajuda a uma idéia do prefeito de São Roque. Ele desapropria a capela de São Roque, um primor de originalidade, muito prejudicada pelas deformações posteriores, e nós conseguimos do Estado, em troca da capela cedida à municipalidade, uma estrada até a casa do sitiante dono atual da capela. Aliás o sitiante sai ganhando, mas sai ganhando o Estado com uma estrada nova também, feita a troco de uma preciosidade histórica… que o Estado também ganha. Este processo me parece solução interessantíssima pra documentos que estejam assim nas mãos de particulares boçais, sem compreensão nem dinheiro pra conservar tais documentos.” 6

Alguns dias depois, chegava do Rio de Janeiro a resposta de Rodrigo, datada a 16 de Junho de 1937:

“Eu já tinha lido o artigo do Paulo Duarte cujo recorte Você me mandou agora e estava assim ao par da excursão proveitosa que vocês fizeram. Do efeito moral produzido pelo artigo me chegara também notícia pela leitura de um ofício do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, publicado no Estado. Mas os efeitos econômicos a que Você alude são muito mais auspiciosos. Espero que a campanha tenha um resultado brilhante.

Fiquei muito satisfeito com sua informação sobre a legislação suplementar de São Paulo, para a proteção de seu patrimônio histórico e artístico, assim como com a notícia do entendimento feito com a municipalidade de São Roque. Foi realmente uma solução ótima e que se deve generalizar quanto possível em casos semelhantes.” 7

Panorâmica do Sítio de Santo Antônio antes do início do processo de restauração. Foto: Germano (Herman Hugo Graeser)1940 Arquivo Fotográfico da 9ª SR-IPHAN-SP

Panorâmica do Sítio de Santo Antônio antes do início do processo de restauração.       Foto: Germano (Herman Hugo Graeser)       1940       Arquivo Fotográfico da 9ª SR-IPHAN-SP

Em seguida, o Sítio de Santo Antônio entrava na pauta do primeiro número da Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A 25 de Junho de 1937, Mário avisava sobre envio de textos:

“Artigos irão dia 30. Um só histórico do Nuto Sant’Ana 8. Outro, um estudo sobre igreja de Santo Antônio, do município de São Roque, com engenharia dentro, feito por mim e Luís Saia 9. Mas que corrida.” 10

Rodrigo respondeu, do Rio de Janeiro, a 3 de julho de 1937:

“Muito obrigado pela sua carta do dia 25. Fiquei contentíssimo com a notícia de seu trabalho sobre a igreja de Santo Antônio, de São Roque, de colaboração com o Luís Saia. Deve ser uma coisa muito boa. Espero ansiosamente por ele, assim como pelo do Nuto Sant’Ana.” 11

E, em seguida, no mesmo dia (3 de julho de 1937: parece que o material aguardado chegou entre uma carta e outra), Rodrigo elogiava e agradecia:

“Muito obrigado pelo material copioso e excelente que você teve a bondade de mandar para a revista. Seu artigo sobre a capela de Santo Antônio, em São Roque, ficou de primeira ordem: o tipo do artigo que deverá ser escrito para uma publicação como a nossa. De todos os pontos de vista, saiu uma coisa ótima. Vou mandar copiar as plantas e desenhos do Luís Saia para que fiquem incorporados ao nosso arquivo. Depois hei de devolvê-los cuidadosamente a você.

Não pude ler ainda o trabalho do Nuto Sant’Ana, mas deve estar também muito bom.” 12

Finalmente, a 9 de Setembro de 1937, Rodrigo incentivava um Mário de Andrade meio que acabrunhado com as feiuras e pobrezas paulistas, que o poeta insistia a comparar com as riquezas das Minas Gerais

“Quanto às obras de arquitetura a serem tombadas em São Paulo, não há de ser tão pobrezinhas quanto Você diz. Deve haver muita coisa interessante e, em matéria de arquitetura rural, sem dúvida as melhores cousas do Brasil.” 13

Como seria de se esperar, o Sítio de Santo Antônio vai ser incluído no Primeiro Relatório enviado pelo Assistente Técnico da Sexta Região, São Paulo, da Diretoria do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional:

“16 de Outubro de 1937: São Paulo: Sexta Região: Primeiro Relatório enviado pelo Assistente Técnico da Diretoria do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional:

“Capela de Santo Antônio: Deste importantíssimo documento arquitetônico antigo, já o Assistente Técnico [Mario de Andrade, Assistente Técnico da Sexta Região do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] enviou um estudo e boa documentação fotográfica, para ser publicado na Revista do SPHAN. Apenas lhe parece necessário acrescentar que, caso se faça o tombamento, este deve estender-se à casa-grande próxima da capela, e de que esta é apenas um anexo. Essa casa-grande, muito embora em ruínas, destruída em parte, é documento de grande valor histórico e arquitetônico. Cogita-se aqui adquirir toda esta propriedade, conforme parecer do Assistente Técnico, ou pelo menos a capela. Com a campanha iniciada pelo doutor Paulo Duarte, o prestígio que ela teve, o boa vontade que encontrou nos meios profanos, é muito provável que se consiga este desideratum, reforçando-se então a casa-grande, reconstruindo-se o que for reconstruível, adaptando-lhe as instalações internas, fortificando-se a capela e cuidando-se de suas admiráveis pinturas internas, fazendo-se da propriedade uma colônia de férias, e lugar de visita turística.” 14

O conjunto do Sítio de Santo Antônio, casa e capela, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 22 de Janeiro de 1941 15 e pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo – CONDEPHAAT, em 11 de Dezembro de 1974 16.

 

O FANTASMA DE SANTO ANTÔNIO (texto de 1991)

A uns setenta quilômetros da cidade de São Paulo, para as bandas de oeste, no fundo de um vale tranqüilo, esconde-se o Sítio de Santo Antônio. Chega-se lá por meio de um emaranhado de caminhos antigos e esquecidos.

Contrariando o costume bandeirista de construir a casa a meia encosta, esta tem à frente um gramado e um pequeno açude: são as águas do Boi-Porussuguaba buscando a margem esquerda do Anhembi, para desaguar em uma garganta entre Cabreúva e Salto.

Hoje o sítio possui uma residência e uma capela; antes havia também uma senzala. A casa é branca, com escassas aberturas nas paredes de taipa assentada sobre alicerces de pedra, formando um retângulo de trinta e seis por dezesseis metros. O telhado tem quatro águas, em cada uma das quais a telha vã é colocada em um único plano; o pé direito é de dois metros e oitenta centímetros e o pau da cumieira tem pouco mais de cinco metros. O piso, primitivamente, era de terra batida; o madeirame, quase todo de canela preta, dura e resistente ao bicho.

Distante uns trinta metros, à esquerda da casa-grande, está uma capela construída em 1681 pelo proprietário, Capitão Fernando Pais de Barros: a residência e a anterior capela interna devem, portanto, ser de data razoavelmente anterior.

Homem de fé e de espada, o Capitão Fernando combateu nos sertões sulinos em 1678, um ano depois, auxiliou na fundação da Colônia do Sacramento; em 1680 buscava o Sabarabuçu. Nestes tempos os paulistas assediavam também as missões do Itatim.

Seu pai, natural do Algarve, foi governador da capitania, Capitão-mor Pedro Vaz de Barros, casado com uma filha de Fernão Dias Pais; desde 1611 é assinalado corseando bandeiras nas terras do Guairá e, em 1628, como chefe de vanguarda da grande expedição de Raposo Tavares e Manuel Preto contra as reduções jesuíticas situadas às margens do Rio Paranapanema. Como lembranças destes feitos, legou ao filho a patente, parte do que lhe coube como espólio de guerra e as terras onde mais tarde se construiu a capela.

Esta tem a nave retangular provida de um coro sobre a entrada e dirigida a um quadrado onde está o altar-mor: à direita duas portas, das quais a posterior leva à sacristia e a anterior a um corredor que dá acesso ao corpo. Um delicioso alpendre precede todo o conjunto.

A construção é em taipa, exceto a torre externa, à direita, erigida em pedra e coberta com barro; o telhado que protege os sinos tem duas inclinações em cada um de seus quatro panos.

A decoração é singela, exceto pela pretensão exuberante do altar-mor, muito grande para o espaço que ocupa. Em cima, pintou-se a forração com figuras simbólicas entrelaçadas: uma cruz, um ramo, um lírio; à volta surgem as decorações.

São motivos amplamente utilizados nas possessões espanholas da América do Sul, inclusive nas igrejas da Companhia. O forro da nave revela uma pintura onde se destaca uma cena sagrada, um grupo de oito personagens, dos quais dois estão ajoelhados; comparecem à cena também alguns animais e tudo se centra na figura paramentada eclesiasticamente: Santo Antônio apresenta um casal ajoelhado a Cristo e os Evangelistas. A composição acontece dentro de um medalhão formado por uma faixa floral que se desdobra em quatro arcos conectados simetricamente pelas extremidades; o resto do forro é ocupado por motivos ornamentais onde se destacam o azul e o vermelho; o espaço é limitado, na junção do taboado com a parede, por frisos de madeira pintados e entalhados.

Acessível pelo mesmo corredor que leva ao coro, a nave apresenta, à direita, um púlpito exibindo frontalmente uma águia bicéfala coroada. Também na nave, onde esta conflui à capela do altar-mor, dois altares laterais, nus em madeira entalhada: o da direita, por não lhe faltar a ornamentação exterior, sobrepõe-se aos frisos do teto; o da esquerda está incompleto, desguarnecido em seu perímetro.

Os altares laterais são retábulos engastados nas paredes de taipa; medem aproximadamente dois metros e cinquenta centímetros no eixo vertical e um metro e noventa centímetros no eixo horizontal.

Entalhados em madeira escura, marrom tendendo ao vermelho, provavelmente nunca estiveram cobertos de ouro ou policromia. É cedro, madeira em que foi lavrada grande parte da talha e escultura jesuíticas, incluindo os retábulos; a fatura registra técnica, composição e fonte de motivos simbólicos comuns na América espanhola.

A farta decoração mostra entrelaçamentos e motivos florais; o simbolismo comparece figurado por rostos alados e pássaros comendo uvas. Obras de mesma manufatura e direção, coincidem sem serem idênticos; no da direita, em cima ao centro, dois anjos toscos e ingênuos ladeiam ajoelhados o monograma da Companhia.

Fortemente planimétrica, nestes altares a composição dos espaços baseia-se na conjugação do arco pleno com o quadrado para a definição no nicho central. Deste vazado, envolvido por um retângulo, surge toda a grade construtiva: pranchas de madeira entalhada são justapostas e os vãos definidos por esta aproximação são cobertos por frisos cilíndricos trabalhados em espiral; os frisos exteriores são planos, com entalhes sugerindo torções.

Neste ponto, as perguntas surgem naturais: porque depois da independência portuguesa, paulistas cuja tradição é atacar as fronteiras espanholas se valem de um púlpito ornado com a águia filipina; por que razão signos da Ordem Jesuítica aparecem em um retábulo de uma capela particular?

A hipótese, a se confirmar documentalmente, é a de que esses retábulos da nave, bem como o púlpito, são espólios de guerra, despojos da guerra travada entre bandeirantes e jesuítas, apoiados por seus aliados índios de lado a lado. Neste caso configura-se não uma afinidade de raízes históricas entre os povos sul-americanos de colonização lusitana e espanhola; ao contrário, evidenciam-se os profundos antagonismos de tais origens.

Mas a história não acaba aí: já em nosso século, quando Washington Luís era presidente do Estado de São Paulo, seu interesse pelo passado paulista, em razão da formação do Museu do Ipiranga e das comemorações do primeiro centenário da Independência do Brasil, levou-o a visitar as antigas construções bandeiristas à volta da capital.

Segundo Mário de Andrade, no que é apoiado por Paulo Duarte, durante uma dessas visitas retirou da Capela de Santo Antônio dois magníficos tocheiros antropomórficos, esculturas de madeira representando negros portadores de círios, para integrar o acervo do Museu.

Mas uma dúvida é levantada por Sérgio Buarque de Holanda, citando passagem de Afonso de Escragnole Taunay, historiador e diretor do Museu a partir de 1917: essas imagens teriam pertencido à capela primitiva da fazenda de Pedro Vaz de Barros, o Pero Guassu, irmão de Fernão, e tal capela era de São Roque de Carambeí, não a de Santo Antônio.

Por outro lado, é de se lembrar que na Fazenda de Nossa Senhora da Conceição de Voturuna, em terras também legadas pelo Capitão Pais de Barros a outro de seus filhos, há uma capela muito parecida com a do Sítio de Santo Antônio.

Embora menor, esta capela tem um altar também em tudo parecido com o altar da capela de Santo Antônio. E na capela de Voturuna havia dois índios tocheiros, hoje infelizmente desaparecidos.

Sei que isso não prova nada, mas não é poético saber que, se em Voturuna havia dois índios tocheiros, os negros tocheiros que hoje estão no Museu do Ipiranga vieram de Santo Antônio?

O Sítio Santo Antônio, era a menina dos olhos do poeta Mário de Andrade, nos tempos em que tinha virado delegado do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, regional de São Paulo. Comprou a propriedade, com escritura passada em 8 de dezembro de 1944. Mas deixemos que o próprio Mário nos conte, com as palavras usadas em carta escrita no mesmo dia da compra ao diretor do SPHAN, Rodrigo Melo Franco de Andrade:

“Você sabe que pretendo doar isso ao Estado, que hesitei de escrever com E grande, e a doação vai ser logo. Emprestei vinte contos para completar o preço da compra, mas creio que pagarei isso fácil, se não surgir nenhum impedimento na minha vida. Mas o sítio está sem ônus nenhum e a doação poderia ser feita até na própria escritura de compra. Mas meu mano que é doutor e me dirige nessas coisas, achou que ficava mais fácil assim, por motivos que ele me deu mas não lembro mais porque essas coisas não ficam na minha cabeça. No princípio estava disposto a doar apenas a parte que me interessa com sua paisagem, e é o que você deve saber pelo Saia, mas não agüentei com a sombra de mesquinhez que me pousou no coração, e vou doar a propriedade inteira. Nem sei como é que pude aguentar a primeira ideia algum tempo, deve ser distração.

Mas estou parolando. As condições da doação vão ser duas: uma que você já sabe, o usufruto em vida; a segunda é destinar aquilo a um repouso de artistas brasileiros. Essa segunda ideia que me foi assoprada e apagou a primeira que destinava o sítio a colônia de férias para operário. Esta última sempre teve um ranço de socialismo precavido, que desde o princípio eu achava ruim. A outra, embora assoprada, eu achei mais minha.”

Mário não usufruiu o sítio, nem concretizou a doação. Morreu no ano seguinte, em 1945. Seu desejo de doação foi cumprido, embora não totalmente, em 1962: a família conservou a posse de parte das terras do entorno. A casa e a capela, cuidadosamente restauradas pelo SPHAN, através do empenho e dedicação do arquiteto Luís Saia, aguardam ainda o destino proposto como uma das condições da doação.

Dizem por aí que o fantasma de Mário costuma aparecer, sem assombrar ninguém, nos corredores do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, para onde foi sua biblioteca e sua documentação pessoal, inclusive cartas. Aparece também na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, e algumas raras vezes foi visto no Palácio da Cultura, sede do SPHAN no centro velho do Rio de Janeiro, onde também está muita coisa sua. Mas só em dias úteis e em horário de expediente. Nos feriados e fins de semana aparece sempre, mas só para quem quiser ver, no Sítio de Santo Antônio, preferivelmente sentado no alpendre da capela, de terno branco e chapéu na cabeça, fumando incontáveis cigarros (e sorrindo, sorrindo sempre, sorrindo muito).

 

Como Chegar Lá:

Para ir a Santo Antônio, o melhor é seguir pela Rodovia Castelo Branco até Araçariguama, uma pequena cidade a uns quarenta quilômetros de São Paulo. Passe então por uma ponte sobre a rodovia e tome o mais à esquerda de um entroncamento de três caminhos de terra. Ande um pouco e depois desça na terceira entrada direita e, ao fim, de novo à direita. Nesse ponto os caminhos formam um labirinto e o melhor é perguntar; ninguém sabe nada, mas insista, pois esse é o charme da coisa. Não volte para trás, mantenha rumo oeste. Santo Antônio está perto, fale de uma antiga casa branca escondida em um vale, pouco depois do Sítio do Querubim, onde o Instituto Butantã mantém cavalos para a produção de soro anti-ofídico. Santo Antônio está logo adiante.

P.S.:    Existe outro caminho, uma estrada asfaltada que sai do centro de São Roque. Mas insisto no caminho de terra, para o visitante se sentir um pouco bandeirante. 17

 

Mario de Andrade, à frente da Capela do Sítio de Santo Antônio. Foto Germano (Herman Hugo Graeser)1945 Arquivo Fotográfico da 9ª SR-IPHAN-SP

Mario de Andrade, à frente da Capela do Sítio de Santo Antônio.       Foto Germano (Herman Hugo Graeser)      1945       Arquivo Fotográfico da 9ª SR-IPHAN-SP

1. KATINSKY, Júlio Roberto. CASAS BANDEIRISTAS: NASCIMENTO E RECONHECIMENTO DA ARTE EM SÃO PAULO. São Paulo, Instituto de Geografia da Universidade de São Paulo, 1976, p. 17.

2. Constituição Federal de 1934. Título V. Capítulo II, Artigo 148. “Cabe à União, aos Estados e aos Municípios favorecer e animar o desenvolvimento das ciências, das artes, das letras e da cultura em geral, proteger os objetos de interesse histórico e o patrimônio artístico do país, bem como prestar assistência ao trabalhador intelectual”.

3. Arquivo Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo; Pasta CRB-D SPHAN 3, documento no Trata-se de cópia de ofício dirigido a Vargas por Capanema, datado de 13 de Abril de 1936; por despacho Vargas autoriza, a 19 do mesmo mês e ano, o funcionamento provisório do SPHAN. A presença desse documento entre os papéis de Mário se explica pela carta que Rodrigo lhe envia do Rio de Janeiro, datada de 1 de Outubro de 1936: “… aquela exposição do Capanema e aquela autorização do Getúlio, cuja cópia mandei a Você”. Ver: Andrade, Rodrigo Melo Franco de. CARTAS A MÁRIO DE ANDRADE: Rodrigo e o SPHAN: p. 119-149. Rio de Janeiro, Ministério da Cultura, 1987, p. 122.

4. PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL: LEGISAÇÃO BRASILEIRA DE PROTEÇÃO AOS BENS CULTURAIS (organizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Brasília, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1976, p. 5-13.

5. ANDRADE, Mário. CARTAS DE TRABALHO: CORRESPONDÊNCIA COM RODRIGO MELO FRANCO DE ANDRADE: 1936-1945. Brasília, Ministério da Educação e Cultura, 1981, p. 63.

6. ANDRADE, Mário. Obra citada, p. 71.

7. ANDRADE, Rodrigo Melo Franco de. CARTAS A MÁRIO DE ANDRADE. Rodrigo e o SPHAN: p. 119-149. Rio de Janeiro, Ministério da Cultura, 1987, p. 131.

8. SANT’ ANA, Nuto. A IGREJA DOS REMÉDIOS. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional: nº 1, p. 127-137. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde, 1937.

9. ANDRADE, Mário. A CAPELA DE SANTO ANTÔNIO. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional: nº 1, p. 119-125. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde, 1937. O texto de Mário inclui quatro fotos, muito possivelmente do Germano, e quatro desenhos, plantas e cortes da capela, com toda a certeza executados por Luís Saia.

10. ANDRADE, Mário. CARTAS DE TRABALHO: CORRESPONDÊNCIA COM RODRIGO MELO FRANCO DE ANDRADE: 1936-1945. Brasília, Ministério da Educação e Cultura, 1981, p. 73.

11. ANDRADE, Rodrigo Melo Franco de. CARTAS A MÁRIO DE ANDRADE. Rodrigo e o SPHAN: p. 119-149. Rio de Janeiro, Ministério da Cultura, 1987, p. 133.

12. ANDRADE, Rodrigo Melo Franco de. Obra citada, p. 133.

13. Mesmo autor, mesma obra, p. 136.

14. ANDRADE, Mário. CARTAS DE TRABALHO: CORRESPONDÊNCIA COM RODRIGO MELO FRANCO DE ANDRADE: 1936-1945. Brasília, Ministério da Educação e Cultura, 1981, p. 82-83.

15. Inscrição no Livro de Belas Artes nº 291; Processo 0241-T-39.

16. Inscrição no Livro do Tombo Histórico nº 99; Processo 00374/73.

17. SALA, Dalton. O FANTASMA DE SANTO ANTÔNIO. Ensaios sobre Arte Colonial Luso-Brasileira: p. 75-84. São Paulo, Landy, 2000. Inicialmente publicado na revista Skultura: São Paulo, Jarina, verão de 1991, p. 20-22.

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