BRASIL: SÃO PAULO  Cotia  PADRE INÁCIO

Erguida em taipa de pilão, com planta quadrada e volumetria equilibrada e harmoniosa, a casa se revelou um perfeito exemplo do agenciamento característico da arquitetura bandeirista: o alpendre dá acesso a uma grande sala, e esta aos cômodos distribuídos à sua volta; aos fundos, uma escada conduz ao andar superior, originalmente utilizado como depósito de gêneros alimentícios e outras mercadorias.

Externamente, a cobertura em quatro águas se estende por longos beirais apoiados em cachorros de madeira da mesma lavra dos entalhes geométricos que ornamentam as colunas do alpendre, das almofadas das portas e janelas.

Build of rammed earth, with a square floor plan and balanced, harmonious proportions, the house is a perfect example of the characteristic layout of bandeirante architecture: the recessed front porch is just outside the main room, which is surrounded by smaller bedrooms; at the back, a set of stairs leads to the upper floor, originally used for the storage of foodstuffs and other goods.

Externally, the hipped roof rests on modillions, providing for wide eaves. The ends of these modillions display carvings similar to those seen on the porch columns, windows shutters, and doors.

Casa do Padre Inácio: Janela da Varanda para o Salão Foto: Germano (Herman Hugo Graeser)1942 Arquivo Fotográfico da 9ª SR-IPHAN-SP

Casa do Padre Inácio: Janela da Varanda para o Salão       Foto: Germano (Herman Hugo Graeser) 1942 Arquivo Fotográfico da 9ª SR-IPHAN-SP

Casa do Padre Inácio: detalhe da coluna do alpendre Foto: Dalton Sala1986

Casa do Padre Inácio: detalhe da coluna do alpendre       Foto: Dalton Sala 1986

Casa do Padre Inácio: Porta da Capela Foto: Dalton Sala2007

Casa do Padre Inácio: Porta da Capela       Foto: Dalton Sala 2007

A Casa do Padre Inácio foi construída na segunda metade do Século XVII; sua importância transcende a excelência de sua arquitetura; pois, ao que parece, foi esta casa a primeira a ser reconhecida, em artigo intitulado Arquitetura Tradicional, publicado pela revista A Cigarra, em sua edição de 31 de Março de 1916, e assinado pelo arquiteto Ricardo Severo. 1

Nesta simples casa de Cotia está pois um exemplo de arquitetura tradicional com um caráter definido sob o ponto de vista da origem lusitana e da sua adaptação ao meio brasílico, no que diz respeito, no que diz respeito à forma, materiais e estilo. Que o aproveitem e aperfeiçoem os que sentem a expressão artística destas rudes formas, os que interpretam a eloquente mudez destas ruínas, e saibam traduzi-las na linguagem moderna com a limpidez cristalina das obras verdadeiras sinceras.” 2

Está aberto o caminho para o reconhecimento dessas casas pelos intelectuais modernistas (Mário de Andrade, Luís Saia, Lúcio Costa, Rodrigo Melo Franco de Andrade), incluindo a adoção de uma postura que pode ser definida como modernista na interpretação e no restauro desses monumentos.

Dentro desta postura, não é de ignorar a identificação dos processos construtivos que utilizam a terra, nomeadamente as taipas de pilão e de sopapo (pau a pique), com os processos que utilizam concreto e concreto armado.

“Aliás, o engenhoso processo de que são feitas – barro armado com madeira – tem qualquer coisa do nosso concreto armado e, com as devidas cautelas, afastando-se o piso do terreno e caiando-se convenientemente as paredes, para evitar-se a humidade e o barbeiro 3, deveria ser adotado para casas de verão e construções econômicas de um modo geral.” 4

Documentação Necessária, ensaio de Lúcio Costa publicado na primeira edição da Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (1937), é emblemático documento da missão, à qual os modernistas do IPHAN se entregaram, de ligar o passado arquitetônico colonial à nova estética arquitetônica, ignorando quase dois séculos – o período intermediário, de ‘desarrumação’, nas palavras de Lúcio, entre o barroco e o modernismo”. 5

“Em 1945, um grupo de empresários paulistas, liderados pelo advogado Rivadavia de Mendonça, adquire a Casa do Padre Inácio e doa-o à União. Neste mesmo ano se inicia o processo de tombamento federal e, logo em seguida, tem início o processo de restauro.” 6

A Casa do Padre Inácio foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 8 de Outubro de 1951 7 e pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo – CONDEPHAAT, em 23 de Setembro de 1974 8.

Casa do Padre Inácio em 1916, na oportunidade da visita de Washington Luís, Victor Dubugras e Aguiar de Andrade. Foto: Washington Luíscirca 1916

Casa do Padre Inácio em 1916, na oportunidade da visita de Washington Luís, Victor Dubugras e Aguiar de Andrade.       Foto: Washington Luís       circa 1916

Casa do Padre Inácio por volta de 1945, antes da restauração. CF Autoria IPHAN

Casa do Padre Inácio por volta de 1945, antes da restauração.

Visita de Washington Luís, em companhia de Afonso de Escragnole Taunay, à Casa do Padre Inácio, em 1948, durante as obras de restauro. CF Autoria SMC SP

Visita de Washington Luís, em companhia de Afonso de Escragnole Taunay, à Casa do Padre Inácio, em 1948, durante as obras de restauro.

Dalton Sala e Luiz Bernini, funcionário do IPHAN responsável pela guarda da Casa do Padre Inácio. Foto: Tiago Sala2003

Dalton Sala e Luiz Bernini, funcionário do IPHAN responsável pela guarda da Casa do Padre Inácio.       Foto: Tiago Sala 2003

A Casa do Padre Inácio é uma construção erudita, perfeito exemplo do agenciamento característico da arquitetura bandeirista, de volumetria equilibrada e harmoniosa.

Foi erguida em taipa de pilão, com planta quadrada; em suas paredes brancas as sombras produzidas pelo telhado assemelham-se às de um relógio de sol, marcando as horas do dia.

Entrando-se pelo alpendre à sua frente, ao centro está a sala principal, com os cômodos distribuídos à sua volta e, aos fundos, o acesso para o andar superior, uma ampla plataforma que domina os dois lados e os fundos do edifício. Nesse grande sótão, as janelas estão no nível do chão, acentuando o caráter de fortificação do edifício, pela possibilidade de uma situação defensiva superior, facilitando a cobertura do terreno. Ordinariamente, deve ter sido depósito de gêneros alimentícios e outras mercadorias. Internamente, esse patamar tem uma abertura sobre a capela, que permitia que se assistisse a missa privadamente.

As quatro águas da cobertura do telhado, de elegantes curvaturas, terminam apoiadas em longos beirais com cachorros de madeira entalhada. Também as colunas do alpendre e as almofadas das portas e janelas exibem entalhes geométricos em relevo.

Um curioso ornamento de barro cozido, com quatro pontas em curva, encima o ponto onde se encontram as quatro águas do telhado.

A casa está no centro de um conjunto de caminhos coloniais que interligava as casas bandeiristas: seguindo-se a estrada que está à sua frente, vai-se até Itapevi, passando por Cotia.

Nas vertentes às suas costas, duas minas de água garantiam o abastecimento da casa e a irrigação das plantações.

O amplo alpendre lembra as funções senhoriais da casa, onde seu proprietário recebia e deliberava, tendo à sua esquerda a capela, à sua direita o quarto de hóspedes e, às suas costas, o salão da família, vedado aos visitantes.

No pátio, ainda remanescem duas pedras usadas para moer cereais.

Pedra de Moer Foto: Dalton Sala2004

Pedra de Moer       Foto: Dalton Sala 2004


Pedra de Moer Foto: Dalton Sala2004

Pedra de Moer       Foto: Dalton Sala 2004



1. SEVERO, Ricardo. ARQUITETURA VELHA. A Cigarra: nº 39, p s/nº (20-22). São Paulo, 31 de Março de 1916.
2. SEVERO, Ricardo. Obra citada, p. 22.
3. Inseto transmissor da Doença de Chagas.
4. COSTA, Lúcio. DOCUMENTAÇÃO NECESSÁRIA. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional: nº 1, p. 31-39. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde, 1937, p. 34.
5. MAYUMI, Lia. TAIPA, CANELA PRETA E CONCRETO: ESTUDO SOBRE O RESTAURO DE CASAS BANDEIRISTAS. São Paulo, Romano Guerra Editora, 2008, p. 29.
6. CERQUEIRA, Carlos Gutierrez; SAIA Neto, José. PESQUISAS EM TORNO DE UM MONUMENTO (SÍTIO DO PADRE INÁCIO). São Paulo, 9ª Coordenadoria do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1997, p. 13-14.
7. Inscrição no Livro de Belas Artes nº 401; Processo 0355-T.
8. Inscrição no Livro do Tombo Histórico nº 86; Processo 00338/73.

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