DOCUMENTO:
UMA CARTA DE LUIS SAIA
A RODRIGO MELO FRANCO DE ANDRADE

 

São Paulo, 30 de dezembro de 1944

Meu caro Dr. Rodrigo:

Como prometi, devia mandar-lhe meu trabalho sobre arquitetura rural do segundo século antes de findar este ano. Na verdade o trabalho estava sendo terminado e já estava sendo passado a limpo, mas acontece que foi descoberta nos arredores de São Paulo, no bairro do Tatuapé, um outro exemplar, cuja importância é grande não só do ponto de vista de uma construção seiscentista mas também como confirmação e esclarecimento de certas observações feitas durante o texto do artigo pra revista. Por outro lado, através dos estudos feitos, cheguei à conclusão que uma casa existente na cidade de Parnaíba, (sobre a qual já se falou em tombar) seria sem dúvida do segundo século também (portanto a única construção residencial urbana seiscentista serra acima) merecendo portanto um estudo mais minucioso. Pelo menos essas duas porque tenho quase certeza que existirão outras a serem descobertas em volta da cidade e em certos pontos da região onde se encontram as restantes, porém penso que estas outras possíveis devem esperar estudos posteriores, senão o trabalho terá de se atrasar indefinidamente.

Nestas circunstâncias pensei que um atraso de alguns dias seria justificado e creio que até o dia 6 o trabalho estará acabado. O Mário também terminou hoje o trabalho sobre o Jesuíno: me telefonou há pouco pedindo que comunicasse isso a você.

Quando você virá? Deve marcar com alguns dias de antecedência para se poder providenciar hotel, que aqui também é muito difícil encontrar de uma hora para outra.

 

Com um abraço do
Saia

Documento do Arquivo Noronha Santos: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

 

SAIA, Luís. A CASA BANDEIRISTA: UMA INTERPRETAÇÃO. São Paulo, Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1955.

p. 10 “A residência do potentado paulista instala-se num retângulo, com paredes de taipa de pilão, telhado de quatro águas e cobertura com telhas de canal. Prefere sempre uma plataforma natural ou artificial, a meia encosta, nas proximidades de um riacho. A planta se desenvolve segundo um esquema bem preciso: uma faixa social, fronteira, contém a capela e o quarto de hóspedes e, no meio, o alpendre; atrás dessa faixa e em correspondência com as divisões dela, em torno de uma sala central, os quartos se dispõem lateralmente. Às vezes, no fundo comparece um agenciamento de serviço, dando acesso ao pavimento superior. Nos exemplares mais tardios, este compartimento se transforma em alpendre. Enquanto a faixa fronteira se aquinhoa com todo o pé direito, como se quisesse com isto valorizar a sua destinação social, o restante da habitação comporta um segundo pavimento destinado ao depósito. Este último dispositivo, que aproveita o espaço ganho à custa da declividade do telhado, é uma solução característica da residência medieval e o seu funcionamento ultramarino se realiza inclusive como câmara térmica.”

 

SALA, Dalton. GUIA DAS CASAS BANDEIRISTAS. São Paulo, Biblos Projeto e Comunicação, 2008.

p. s/nº (3-4)  Em seu modelo ideal, a casa bandeirista se desenvolve a partir de uma planta retangular erguida em taipa de pilão e revestida de tabatinga, com paredes externas brancas com poucas aberturas, amplo telhado e um alpendre aberto na fachada principal.

A cobertura de telhas em quatro águas, assentada sobre estrutura de madeira apoiada sobre uma grande vergam termina em largos beirais cujos cachorros estendem-se muito além das paredes, protegendo a taipa da ação erosiva das chuvas frequentes.

A geometria da fachada é dominada por um amplo alpendre onde o patriarca recebia os visitantes. À direita de quem sai pela porta principal para o alpendre, fica a entrada para o quarto de hóspedes; e, à esquerda, o acesso à capela, disposição que evitava que estranhos adentrassem a área familiar.

O amplo espaço interior, pouco iluminado e de aspecto austero, tem o chão de terra batida. A sala principal, contígua ao alpendre, impressiona por suas grandes dimensões. Em torno dela, estão distribuídos os quartos, zona restrita à família.

Escassamente mobiliada, seu equipamento consistia basicamente de redes, esteiras, arcas, bancos, mesas e armários.

Nos primeiros tempos da colônia, dormia-se em redes, raras vezes substituídas por catres de madeira e couro. Nas arcas, dos mais diversos tamanhos, guardavam tudo o que possuíam, e não era muito: ferramentas, armas, pólvora e roupas. Os gêneros alimentícios eram estocados em sacos e barricas, dispostos em plataformas elevadas ou em sótãos entre o forro e o telhado.

Para sentar, havia bancos e banquetas, sendo raras as cadeiras mais pomposas. Quando existiam, era, privilégio do patriarca ou, em suas frequentes ausências, de sua esposa. Usualmente, as mulheres se sentavam no chão, sobre esteiras, tendo raramente o conforto de almofadas.

Comia-se à mesa. Nos armários de prateleiras, guardavam-se tigelas, gamelas, cuias e canecas; e, às vezes, alguma porção de alimento. Com exceção das facas de todos os tipos e tamanhos, os talheres eram um luxo.

Cozinhava-se na área livre aos fundos da casa, a céu aberto nos dias bons, ou debaixo de tendas de couro cru, quando chovia. Rezava-se na capela, onde havia um altar adornado segundo as posses da família. Quando eram muitos os assistentes à missa, ocupava-se também o alpendre.

Nos arredores da casa, havia plantações e instalações auxiliares, como moendas de cana de açúcar, estábulos, oficinas e vivendas para os serviçais.

Vivia-se uma vida austera e despojada.

 

SEVERO, Ricardo. A ARTE TRADICIONAL DO BRASIL: DA ARQUITETURA. Revista do Brasil: vol. IV, p. 394-424. Conferência realizada no dia 31 de Março de 1917, a convite do Grêmio Politécnico de São Paulo. São Paulo, Propriedade de uma Sociedade Anônima, Janeiro-Abril de 1917.

p. 406 “Em São Paulo, a casa de Cotia, nas proximidades da Capital, representa igualmente um caso típico que, na sua aproximação ao quadro local e no seu aspecto de característica originalidade, deve entrar na nossa série tradicional. Dela já me ocupei noutra publicação.”

 

ALENCAR, José de. A NETA D’ ANHANGUERA. Revista do Brasil: vol. IV, p. 231-246. São Paulo, Propriedade de uma Sociedade Anônima, Janeiro-Abril de 1917.

p. 231 “Graças a uma gentileza especial do seu eminente colaborador, senhor Mário de Alencar, a Revista do Brasil publica hoje estes capítulos inéditos de um romance que José de Alencar deixou iniciado. ‘São páginas, escreve o delicado artista que herdou e carrega com distinção a glória literária de Alencar, são páginas lançadas no desalinho da primeira inspiração, e que ficaram na pasta do escritor, como trabalho de rascunho, e falho até em algumas palavras. Os defeitos que levam, não lhe diminuem, porém, o interesse; ao contrário, a meu ver, dão ao inédito a graça do inacabado, que tanto satisfaz a curiosidade dos admiradores na obra dos artistas, surpreendidos no ato do trabalho.’”

p. 232 “A expedição, que seguia agora pela ourela da mata, era numerosa, e parecia menos uma bandeira, que a reunião de cinco bandas, à julgar pelas insígnias, que à frente de cada troço de gente trazia enrolada na haste do chuço cercado de guizos e preso à cabeçada da besta guieira ou madrinha.

No geral caminhavam a pé os viandantes; mas com os combois da bagagem, que precediam suas respectivas bandeiras, vinham além dos animais de carga, as cavalgaduras precisas.

Rompia a marcha a Bandeira do Sapo, a qual tinha por insígnia um guião amarelo. O tope da haste de onde pendia o trapo de sarja, embutia-se em um toro de madeira rajado que arremedava a figura de uma intanha.

Logo após o comboi vinha o sertanista, cabo ou dono desta bandeira. Era homem de estatura meã e de tal corpulência, que não cedia em grossura ao que media em altura. Tinha as pernas curvas e arqueadas; e os braços não podiam abranger o vasto abdômen.

Mas em sendo preciso, esses membros velhos desenvolviam uma atividade prodigiosa, de que davam boa mostra o passo ágil com que despejava o caminho, e os ademanes que lhe suavizavam a larga marcha.

A obesidade que lhe apagava feições e vulto d’ homem, transformando-o em um acervo de carne, deu origem ao apelido de Sapo, por que era geralmente conhecido, e de que ele Pascoal Baião, se desvanecia, despedindo nos pulos e movimentos a agilidade daquele bactriano.

Seguia-se logo o seminário do Diabo, nome que tinha a segunda bandeira cuja divisa era uma batina, agora enrolada, mas de ordinário envergada na cruz de taquara cheia de cascavéis, que servia de crear à besta da cabeçada.

O sertanista, alto, seco e mirrado, como o esqueleto de um lagarto, que o sol esmichou caminhava na frente com o passo tão rijo, que lhe fazia bater a cabeça em constante vibração, à semelhança do réptil que lhe tomara a figura.

Trajado á maneira dos outros sertanistas, com jubão de pele, compridas polainas de veado, que lhe subiam até o coz (cintura), e alpergatas de couro d’ anta; trazia também como eles o mosquete a tiracolo, a catana presa à ilharga, e garrafa à cinta em cruz com o facão de mato.

Mas no meio deste fato e petrecho próprios para romper mato e afrontar com os perigos do sertão; havia no traje do sujeito um traço que o distinguia logo de qualquer outro; e era a estola que cingia-lhe os ombros, e cujas pontas roçavam o cabo da faca, e a coronha da pistola.

Era este sertanista o Padre Manoel Borba Gato, que aborrido com a existência monótona de vigário da paroquia de Taubaté, dera em fazer entradas ao sertão para catequizar os índios. Dessa missão apostólica desempenhava-se ele com o maior zelo, arrancando os selvagens das brenhas onde os ia buscar, e pondo-os aos cuidados de pessoas pias.

Acusavam-no entretanto os aleivosos de cativar os índios e vendê-los; quando o reverendo apenas recebia uma módica propina para indenização dos gastos que fazia com a sua tropa, à qual ele paternalmente chamava ‘meu seminário’.

Logo após do padre, vinha o Pé de Pau, alcunha por que era tratado geralmente entre os bandeirantes o sertanista Jerônimo Bueno, um dos mais intrépidos e famigerados capitães de entrada, que então se nomeavam por toda a capitania de São Paulo.

Era de galhardo parecer, bem apessoado. Primaria entre os mais guapos e bizarros cavalheiros, se não fosse o defeito da perna direita cortada na altura do joelho e substituída por uma canela postiça, d’ onde lhe vinha o apelido.

Essa mutilação de um membro locomotor não embargava a marcha expedita do sertanista, tal era a destreza que ele havia adquirido no manejo daquela tíbia de pau, que lhe servia ao mesmo tempo de pé e de arma, pois costumava embutir-lhe a ponta na argola de um ancinho.

A Bandeira dos Caborés, de que era dono o Bueno, distinguia-se pelo vermelho dos galhardetes que ao sopro da brisa se enroscavam pela haste da campainha pregada à cabeçada.

O quarto sertanista, Fernão Arruda, o Montanha, era mancebo ainda. Tinha um porte descomunal que lhe dava proporções de gigante, e força prodigiosa. O rosto, de aspecto …….. não o pungia o mais ligeiro buço; tinha lisa e baça a tez, que lhe estava denunciando a raça.

Por isso, e pela gente que a formava, conhecia-se por Bandeira dos mamelucos, a que dirigia o Montanha, e era o terror dos índios caiapós, os quais fugiam espavoridos quando avistavam lhe o pendão azul.

Vinha por último o cabo da exposição, Antônio de Mendonça cognominado o Barbicas, por causa da pera longa, tesa e pontuda que lhe espetava o queixo saliente, e estava sempre a mexer-se com a constante mobilidade da maxila inferior, a morder o bigode.

Orçava ele pelos cincoenta anos, e era sujeito de marca pequena, franzino de talhe, com braços e pernas que mais pareciam caniços. Diziam porém os companheiros que não era de osso, mas de ferro, aquela carcaça; assim como em vez de pele, estava coberto com uma malha d’ aço.

Si o vulto não o avantajava entre os outros, o olhar penetrante e astuto que desferia a sua pupila fulva, e a expressão dura e imperiosa que lhe escarnava a fisionomia; em certos momentos, bem denotavam a superioridade moral que só lhe pudera disputar entre os companheiros, Jeronimo Bueno.

A bandeira de Mendonça, vulgarmente chamada dos Ferradores, não tinha mais insígnia do que um grosso arame representando nas suas voltas as Quinas portuguesas. Com isso marcava ele à maneira de reses, os índios que ia caçando nas suas correrias, e metendo em libambos.

Chamava ele a esses homens ferrados de reúnas.”

 

Hino dos Bandeirantes
(letra do hino do Estado de São Paulo)
Guilherme de Almeida

Paulista, para um só instante
Dos teus quatro séculos ante
A tua terra sem fronteiras,
O teu São Paulo das “bandeiras”!

Deixa atrás o presente:
Olha o passado à frente!

Vem com Martim Afonso a São Vicente!
Galga a Serra do Mar! Além, lá no alto,
Bartira sonha sossegadamente
Na sua rede virgem do Planalto.
Espreita-a entre a folhagem de esmeralda;
Beija-lhe a Cruz de Estrelas da grinalda!

Agora, escuta! Aí vem, moendo o cascalho,
Botas-de-nove-léguas, João Ramalho.

Serra-acima, dos baixos da restinga,
Vem subindo a roupeta
De Nóbrega e de Anchieta.

Contempla os Campos de Piratininga!
Este é o Colégio. Adiante está o sertão.
Vai! Segue a entrada! Enfrenta!
Avança! Investe!

Norte – Sul – Este – Oeste,
Em “bandeira” ou “monção”,
Doma os índios bravios.

Rompe a selva, abre minas, vara rios;
No leito da jazida
Acorda a pedraria adormecida;
Retorce os braços rijos
E tira o ouro dos seus esconderijos!

Bateia, escorre a ganga,
Lavra, planta, povoa.
Depois volta à garoa!

E adivinha através dessa cortina,
Na tardinha enfeitada de miçanga,
A sagrada Colina
Ao Grito do Ipiranga!

Entreabre agora os véus!
Do cafezal, Senhor dos Horizontes,
Verás fluir por plainos, vales, montes,
Usinas, gares, silos, cais, arranha-céus!

 

SALA, Dalton. O FANTASMA DE SANTO ANTÔNIO.

Ensaios sobre Arte Colonial Luso-Brasileira: p. 75-84. São Paulo, Landy, 2000. Inicialmente publicado na revista Skultura: São Paulo, Jarina, verão de 1991, p. 20-22.

A uns setenta quilômetros da cidade de São Paulo, para as bandas de oeste, no fundo de um vale tranqüilo, esconde-se o Sítio de Santo Antônio. Chega-se lá por meio de um emaranhado de caminhos antigos e esquecidos.

Contrariando o costume bandeirista de construir a casa a meia encosta, esta tem à frente um gramado e um pequeno açude: são as águas do Boi-Porussuguaba buscando a margem esquerda do Anhembi, para desaguar em uma garganta entre Cabreúva e Salto.

Hoje o sítio possui uma residência e uma capela; antes havia também uma senzala. A casa é branca, com escassas aberturas nas paredes de taipa assentada sobre alicerces de pedra, formando um retângulo de trinta e seis por dezesseis metros. O telhado tem quatro águas, em cada uma das quais a telha vã é colocada em um único plano; o pé direito é de dois metros e oitenta centímetros e o pau da cumieira tem pouco mais de cinco metros. O piso, primitivamente, era de terra batida; o madeirame, quase todo de canela preta, dura e resistente ao bicho.

Distante uns trinta metros, à esquerda da casa-grande, está uma capela construída em 1681 pelo proprietário, Capitão Fernando Pais de Barros: a residência e a anterior capela interna devem, portanto, ser de data razoavelmente anterior.

Homem de fé e de espada, o Capitão Fernando combateu nos sertões sulinos em 1678, um ano depois, auxiliou na fundação da Colônia do Sacramento; em 1680 buscava o Sabarabuçu. Nestes tempos os paulistas assediavam também as missões do Itatim.

Seu pai, natural do Algarve, foi governador da capitania, Capitão-mor Pedro Vaz de Barros, casado com uma filha de Fernão Dias Pais; desde 1611 é assinalado corseando bandeiras nas terras do Guairá e, em 1628, como chefe de vanguarda da grande expedição de Raposo Tavares e Manuel Preto contra as reduções jesuíticas situadas às margens do Rio Paranapanema. Como lembranças destes feitos, legou ao filho a patente, parte do que lhe coube como espólio de guerra e as terras onde mais tarde se construiu a capela.

Esta tem a nave retangular provida de um coro sobre a entrada e dirigida a um quadrado onde está o altar-mor: à direita duas portas, das quais a posterior leva à sacristia e a anterior a um corredor que dá acesso ao corpo. Um delicioso alpendre precede todo o conjunto.

A construção é em taipa, exceto a torre externa, à direita, erigida em pedra e coberta com barro; o telhado que protege os sinos tem duas inclinações em cada um de seus quatro panos.

A decoração é singela, exceto pela pretensão exuberante do altar-mor, muito grande para o espaço que ocupa. Em cima, pintou-se a forração com figuras simbólicas entrelaçadas: uma cruz, um ramo, um lírio; à volta surgem as decorações.

São motivos amplamente utilizados nas possessões espanholas da América do Sul, inclusive nas igrejas da Companhia. O forro da nave revela uma pintura onde se destaca uma cena sagrada, um grupo de oito personagens, dos quais dois estão ajoelhados; comparecem à cena também alguns animais e tudo se centra na figura paramentada eclesiasticamente: Santo Antônio apresenta um casal ajoelhado a Cristo e os Evangelistas. A composição acontece dentro de um medalhão formado por uma faixa floral que se desdobra em quatro arcos conectados simetricamente pelas extremidades; o resto do forro é ocupado por motivos ornamentais onde se destacam o azul e o vermelho; o espaço é limitado, na junção do taboado com a parede, por frisos de madeira pintados e entalhados.

Acessível pelo mesmo corredor que leva ao coro, a nave apresenta, à direita, um púlpito exibindo frontalmente uma águia bicéfala coroada. Também na nave, onde esta conflui à capela do altar-mor, dois altares laterais, nus em madeira entalhada: o da direita, por não lhe faltar a ornamentação exterior, sobrepõe-se aos frisos do teto; o da esquerda está incompleto, desguarnecido em seu perímetro.

Os altares laterais são retábulos engastados nas paredes de taipa; medem aproximadamente dois metros e cinquenta centímetros no eixo vertical e um metro e noventa centímetros no eixo horizontal.

Entalhados em madeira escura, marrom tendendo ao vermelho, provavelmente nunca estiveram cobertos de ouro ou policromia. É cedro, madeira em que foi lavrada grande parte da talha e escultura jesuíticas, incluindo os retábulos; a fatura registra técnica, composição e fonte de motivos simbólicos comuns na América espanhola.

A farta decoração mostra entrelaçamentos e motivos florais; o simbolismo comparece figurado por rostos alados e pássaros comendo uvas. Obras de mesma manufatura e direção, coincidem sem serem idênticos; no da direita, em cima ao centro, dois anjos toscos e ingênuos ladeiam ajoelhados o monograma da Companhia.

Fortemente planimétrica, nestes altares a composição dos espaços baseia-se na conjugação do arco pleno com o quadrado para a definição no nicho central. Deste vazado, envolvido por um retângulo, surge toda a grade construtiva: pranchas de madeira entalhada são justapostas e os vãos definidos por esta aproximação são cobertos por frisos cilíndricos trabalhados em espiral; os frisos exteriores são planos, com entalhes sugerindo torções.

Neste ponto, as perguntas surgem naturais: porque depois da independência portuguesa, paulistas cuja tradição é atacar as fronteiras espanholas se valem de um púlpito ornado com a águia filipina; por que razão signos da Ordem Jesuítica aparecem em um retábulo de uma capela particular?

A hipótese, a se confirmar documentalmente, é a de que esses retábulos da nave, bem como o púlpito, são espólios de guerra, despojos da guerra travada entre bandeirantes e jesuítas, apoiados por seus aliados índios de lado a lado. Neste caso configura-se não uma afinidade de raízes históricas entre os povos sul-americanos de colonização lusitana e espanhola; ao contrário, evidenciam-se os profundos antagonismos de tais origens.

Mas a história não acaba aí: já em nosso século, quando Washington Luís era presidente do Estado de São Paulo, seu interesse pelo passado paulista, em razão da formação do Museu do Ipiranga e das comemorações do primeiro centenário da Independência do Brasil, levou-o a visitar as antigas construções bandeiristas à volta da capital.

Segundo Mário de Andrade, no que é apoiado por Paulo Duarte, durante uma dessas visitas retirou da Capela de Santo Antônio dois magníficos tocheiros antropomórficos, esculturas de madeira representando negros portadores de círios, para integrar o acervo do Museu.

Mas uma dúvida é levantada por Sérgio Buarque de Holanda, citando passagem de Afonso de Escragnole Taunay, historiador e diretor do Museu a partir de 1917: essas imagens teriam pertencido à capela primitiva da fazenda de Pedro Vaz de Barros, o Pero Guassu, irmão de Fernão, e tal capela era de São Roque de Carambeí, não a de Santo Antônio.

Por outro lado, é de se lembrar que na Fazenda de Nossa Senhora da Conceição de Voturuna, em terras também legadas pelo Capitão Pais de Barros a outro de seus filhos, há uma capela muito parecida com a do Sítio de Santo Antônio.

Embora menor, esta capela tem um altar também em tudo parecido com o altar da capela de Santo Antônio. E na capela de Voturuna havia dois índios tocheiros, hoje infelizmente desaparecidos.

Sei que isso não prova nada, mas não é poético saber que, se em Voturuna havia dois índios tocheiros, os negros tocheiros que hoje estão no Museu do Ipiranga vieram de Santo Antônio?

O Sítio Santo Antônio, era a menina dos olhos do poeta Mário de Andrade, nos tempos em que tinha virado delegado do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, regional de São Paulo. Comprou a propriedade, com escritura passada em 8 de dezembro de 1944. Mas deixemos que o próprio Mário nos conte, com as palavras usadas em carta escrita no mesmo dia da compra ao diretor do SPHAN, Rodrigo Melo Franco de Andrade:

“Você sabe que pretendo doar isso ao Estado, que hesitei de escrever com E grande, e a doação vai ser logo. Emprestei vinte contos para completar o preço da compra, mas creio que pagarei isso fácil, se não surgir nenhum impedimento na minha vida. Mas o sítio está sem ônus nenhum e a doação poderia ser feita até na própria escritura de compra. Mas meu mano que é doutor e me dirige nessas coisas, achou que ficava mais fácil assim, por motivos que ele me deu mas não lembro mais porque essas coisas não ficam na minha cabeça. No princípio estava disposto a doar apenas a parte que me interessa com sua paisagem, e é o que você deve saber pelo Saia, mas não agüentei com a sombra de mesquinhez que me pousou no coração, e vou doar a propriedade inteira. Nem sei como é que pude aguentar a primeira ideia algum tempo, deve ser distração.

Mas estou parolando. As condições da doação vão ser duas: uma que você já sabe, o usufruto em vida; a segunda é destinar aquilo a um repouso de artistas brasileiros. Essa segunda ideia que me foi assoprada e apagou a primeira que destinava o sítio a colônia de férias para operário. Esta última sempre teve um ranço de socialismo precavido, que desde o princípio eu achava ruim. A outra, embora assoprada, eu achei mais minha.”

Mário não usufruiu o sítio, nem concretizou a doação. Morreu no ano seguinte, em 1945. Seu desejo de doação foi cumprido, embora não totalmente, em 1962: a família conservou a posse de parte das terras do entorno. A casa e a capela, cuidadosamente restauradas pelo SPHAN, através do empenho e dedicação do arquiteto Luís Saia, aguardam ainda o destino proposto como uma das condições da doação.

Dizem por aí que o fantasma de Mário costuma aparecer, sem assombrar ninguém, nos corredores do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, para onde foi sua biblioteca e sua documentação pessoal, inclusive cartas. Aparece também na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, e algumas raras vezes foi visto no Palácio da Cultura, sede do SPHAN no centro velho do Rio de Janeiro, onde também está muita coisa sua. Mas só em dias úteis e em horário de expediente. Nos feriados e fins de semana aparece sempre, mas só para quem quiser ver, no Sítio de Santo Antônio, preferivelmente sentado no alpendre da capela, de terno branco e chapéu na cabeça, fumando incontáveis cigarros (e sorrindo, sorrindo sempre, sorrindo muito).

Como Chegar Lá:
Para ir a Santo Antônio, o melhor é seguir pela Rodovia Castelo Branco até Araçariguama, uma pequena cidade a uns quarenta quilômetros de São Paulo. Passe então por uma ponte sobre a rodovia e tome o mais à esquerda de um entroncamento de três caminhos de terra. Ande um pouco e depois desça na terceira entrada direita e, ao fim, de novo à direita. Nesse ponto os caminhos formam um labirinto e o melhor é perguntar; ninguém sabe nada, mas insista, pois esse é o charme da coisa. Não volte para trás, mantenha rumo oeste. Santo Antônio está perto, fale de uma antiga casa branca escondida em um vale, pouco depois do Sítio do Querubim, onde o Instituto Butantã mantém cavalos para a produção de soro anti-ofídico. Santo Antônio está logo adiante.

P.S.:    Existe outro caminho, uma estrada asfaltada que sai do centro de São Roque. Mas insisto no caminho de terra, para o visitante se sentir um pouco bandeirante.

SAINT-HILAIRE, Auguste de. VIAGEM ÀS NASCENTES DO RIO SÃO FRANCISCO E À PROVÍNCIA DE GOIÁS. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1937, tomos I-II.

Volume II, p. 181-188: Visita de Auguste de Saint-Hilaire à Fazenda Babilônia. 

“A 5 léguas de Gonçalo Marques parei na fazenda do comandante de Meia Ponte, o senhor Joaquim Alves de Oliveira, para o qual o governador da província me dera uma carta de recomendação, e do qual me fizera grandes elogios. Fui muito bem recebido por ele, e passei alguns dias na sua habitação.

O senhor Joaquim Alves de Oliveira era o autor da sua fortuna, e essa era considerável. Fora educado por um jesuíta, e parece que assimilara dessa escola o espírito de ordem e discrição que o fazia distinguir tão bem dos seus compatriotas. Dedicou-se, a princípio, ao comércio; como, porém, tinha mais gosto pela agricultura, acabou por renunciar quase completamente às ocupações mercantis; todavia, entregava-se ainda a especulações comerciais quando esperava delas lucros importantes; assim, por ocasião da minha viagem, acabava de mandar o seu genro a Cuiabá, com uma enorme caravana carregada de várias mercadorias. O comandante de Meia Ponte, porém, não falava jamais dos seus negócios a quem quer que fosse, e ninguém sabia se tinha ganhado ou perdido neles. De todos os brasileiros que conheci era ele, talvez, aquele em quem encontrei maior ódio pela ociosidade; concedo aos meus hóspedes, dizia-me ele rindo, três dias de repouso; mas, ao cabo desse tempo, encarrego-os de uma parte da administração da minha casa. A conversação de Joaquim Alves demostrava grande amor à justiça e a religião, sem mesquinharias; era homem de grande sensatez, extrema simplicidade e de uma bondade infinita. 

A fazenda de Joaquim Alves, fundada pelo seu proprietário, tinha apenas o seu nome 3; era, seguramente, o mais belo estabelecimento existente na zona de Goiás que percorri. Reinavam lá uma limpeza e ordem como não vi em parte alguma. A casa do proprietário constava apenas do andar térreo; não se via lá nada de magnífico, mas era muito vasta e perfeitamente conservada. Uma longa varanda 4 se estendia na frente das construções, e mantinha a todas as horas do dia sombra e ventilação livre. O engenho de açúcar, que dependia da casa do dono, era disposto de maneira que, da sala de jantar, se podia ver o que se fazia na casa dos tachos, e da varanda, o que se passava na moenda. Esta última dava para um pátio quadrangular. Uma série de dependências, a sala dos arreios, a oficina do cordoeiro, a do ferreiro, o lugar em que se guardava tudo o que era necessário aos burros, enfim, as cavalariças, prolongavam a residência do proprietário, e dando, como esta última, para o terreiro, formavam um dos seus lados. Um outro era ocupado pelas senzalas dos negros casados, separadas umas das outras por paredes, mas dispostas sob um único teto, que era coberto de telhas. Paredes de barro socado fechavam o terreiro pelos outros dois lados.

Toda essa casa fora, desde o princípio, tão perfeitamente montada que o proprietário não tinha, por assim dizer, necessidade de dar nenhuma ordem; cada qual sabia o que tinha a fazer, e colocava-se por si mesmo no lugar que devia ocupar. Para se fazer compreender, o comandante de Meia Ponte podia contentar-se em dar uma palavra ou fazer um gesto. No meio de cem escravos não se ouvia um só grito; não se viam desses homens apressados que vão e vêm, e cujos movimentos, aparentando atividade, não indicam realmente ainda o embaraço de saber em que se ocupar; por toda a parte o silêncio, a ordem e uma espécie de tranquilidade, em harmonia com a que reina na natureza nesses climas felizes. Dir-se-ia que um gênio invisível governava essa casa; o proprietário ficava sentado tranquilamente na sua varanda, mas é fácil de ver que nada lhe escapava, e que um rápido golpe de vista lhe bastava para inteirar-se de tudo.

A regra que adotara Joaquim Alves, na sua conduta para com os escravos, era de alimentá-los fartamente, vesti-los de maneira conveniente, ter o maior cuidado com eles quando doentes, e de não deixá-los jamais na ociosidade. Anualmente casava alguns deles; as mães só iam trabalhar nas plantações quando os filhos já as podiam dispensar, e então ficavam sob a guarda de uma única mulher, que tomava conta de todos. Uma precaução inteligente fora tomada para evitar, tanto quanto possível, as emulações, desordens e rixas; a de afastar muito as senzalas dos negros celibatários das dos homens casados.

O dia de domingo pertencia aos escravos; era-lhes proibido ir procurar ouro, mas se lhes davam terras que podiam cultivar em seu exclusivo proveito. Joaquim Alves estabelecera na própria casa uma venda onde seus negros encontravam os diversos objetos que são ordinariamente do gosto dos africanos, e era o algodão que servia de moeda; por este meio afastava dos seus homens a tentação do roubo; incitava-os ao trabalho, dando-lhes grande interesse em cultivar, tornava-os apegados à terra e ao senhor, e, ao mesmo tempo, aumentava os produtos do solo.

Enquanto me detive em casa do comandante de Meia Ponte, visitei as diferentes partes do seu estabelecimento; o chiqueiro, os paióis, o engenho de farinha, o local em que se ralavam as raízes da mandioca, naquele em que se colocara a máquina destinada a descaroçar o algodão, a tecelagem, etc., e por toda a parte achei uma ordem e limpeza notáveis. Os fornos do engenho de açúcar não tinham sido construídos de acordo com os modernos princípios científicos, mas eram aquecidos por fora, o que tornava menos penosa, para os trabalhadores, a operação da fervura. Um tambor horizontal, que a água punha em movimento, fazia funcionar doze dessas pequenas máquinas chamadas descaroçadores, que servem para separar o algodão das suas sementes 5. Era também a água que fazia mover o ralador da mandioca cuja descrição dou a seguir. O alpendre onde estava o ralador erguia-se sobre esteios; abaixo do seu assoalho entre os esteios, a água, trazida por uma calha inclinada, batia em uma roda horizontal e a fazia girar; o eixo da roda atravessava o soalho da câmara superior e se elevava até altura cômoda ao trabalho; na extremidade estava fixada outra roda horizontal, cujo bordo era revestido de um ralo de folha de flandres; o eixo e a segunda roda se alojavam em tábuas que constituíam um prisma quadrangular, cada lado do qual tinha uma chanfradura correspondente ao ralo; quando a roda girava, quatro pessoas de cada vez apresentavam raízes de mandioca ao ralo, e como elas se apoiavam nas chanfraduras das tábuas do prisma, seus braços não podiam fazê-las vacilar, e a ação da máquina não se interrompia.

O comandante de Meia Ponte renunciara, em parte das suas plantações, à maneira bárbara de cultivar a terra que geralmente adotaram os brasileiros; fazia uso da charrua e adubava a terra com o bagaço da cana-de-açúcar 6; por esse processo, não era obrigado a incendiar todos os anos novas matas; replantava a cana nas mesmas terras e conservava suas plantações próximas da casa, o que tornava a vigilância mais fácil e economizava o tempo dos seus escravos. Vendia em Meia Ponte e Vila Boa o seu açúcar e a aguardente; mas cultivava o algodão para remetê-lo ao Rio de Janeiro e à Bahia. Foi ele o primeiro, já o disse, que começou com essas exportações, e seu exemplo foi imitado por vários outros colonos. Por ocasião da minha viagem tinha o projeto de ampliar ainda a cultura do algodoeiro na sua fazenda, e queria estabelecer, na própria povoação de Meia Ponte, uma usina para separar o algodão das sementes, assim como uma tecelagem em que contava empregar mulheres o crianças sem trabalho. Despojado das sementes, o algodão do país, cuja qualidade é ótima, pagara-se, naquela época, no local, a 3.000 réis (18 francos e 75 centavos) a arroba 7; o frete de Meia Ponte a Bahia era de 1.800 réis (11 francos e 25 centavos) por arroba, ou de 2.000 réis (12 francos e 50 centavos) até o Rio do Janeiro 8, e havia tão grande vantagem em fazer remessas por esse preço que Joaquim Alves oferecera, sem hesitar, a todos os lavradores da zona, comprar-lhes o algodão à razão de 3.000 réis.

Mostrando-lhes um gênero que seria possível exportar com vantagem, o comandante de Meia Ponte abria aos seus compatriotas uma era nova; mostrava o que era necessário fazer para arrancar à sua desgraçada província à situação de miséria em que a lançara a extração do ouro mal dirigida. Enquanto ele agia, vários dos seus concidadãos sustentavam que não havia salvação para a província, senão realizando uma ideia absurda aventada por Luiz Antônio da Silva e Sousa 9: para deter a decadência que diariamente fazia progresso, era necessário, diziam eles, impedir o ouro de sair do país, criando uma moeda provincial. 

‘Mas, pode-se lhes retorquir, se essa moeda não é um valor metálico, ou não é permutável à vontade por um valor metálico, não há forças humanas que lhe possam dar algum crédito. Se, pelo contrário, a moeda for de cobre, ouro ou prata, sairá da nossa província, apesar das mais rigorosas proibições, como o ouro em pó sai todos os dias; porém, além dos limites da província, aceitá-la-ão somente pelo valor intrínseco, e os negociantes da vossa capitania venderão suas mercadorias por preços que os indenizem da perda 10. O ouro alterado, que circula em Goiás, pode já ser considerado como uma espécie de moeda provincial, pois que não tem curso fora dela, e quando o comerciante a exporta é obrigado a reduzi-lo ao verdadeiro valor purificando-o, e depois proporciona os preços à diminuição que sofreu’. 11

Após tantas jornadas tão monótonas como fatigantes, passadas no meio de desertos, sentia-me feliz em me encontrar em uma casa que reunia todas as comodidades que o país pode oferecer, onde gozava de inteira liberdade e cujo proprietário, homem esclarecido, tinha para comigo todas as atenções. O tempo que passei em casa de Joaquim Alves foi empregado mui proveitosamente. Os meus homens fizeram uma soberba caçada nas margens de um pequeno lago vizinho à habitação; quanto a mim, redigi uma parte dos esclarecimentos que consegui a respeito de vários assuntos, e hauri novos com a conversação do meu hospedeiro 12.

Deixei a Fazenda de Joaquim Alves cheio de reconhecimento pela excelente hospitalidade que me dera o proprietário, dirigi-me para Meia Ponte, afastada cerca de uma légua.”


1. A lenda da Serra dos Martírios, uma montanha de prata onde se viam as formas dos instrumentos do martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo – a coroa de espinhos, a vara do açoite e a coluna, a cruz, os pregos e o martelo, a lança e a esponja de vinagre – surgiu da viagem que os bandeirantes Bartolomeu Bueno da Silva (o segundo) e Antônio Pires de Campos fizeram com seus pais, no ano de 1673, em busca das riquezas do sertão.

2. Inscrição no Livro de Belas Artes nº 480; Processo 0747-T-64.

3. A denominação Engenho São Joaquim é posterior à viagem de Saint-Hilaire.

4. Em nota, Saint-Hilaire assinala que “descrevi noutro lugar estas espécies de galerias abertas na frente”, o que evidencia que as longas varandas não eram incomuns nas fazendas brasileiras.

5. Nota de Saint-Hilaire: “Vide a descrição dessas pequenas máquinas e tambores de que trato aqui, na minha Viagem pelas Províncias de Rio de Janeiro e de Minas Gerais: volume I, p. 400; volume II, p. 91.”

6. Nota de Saint-Hilaire: “O bagaço é a cana-de-açúcar que passa pelos cilindros onde deixou o suco.”

7. Nota de Saint-Hilaire: “A arroba do Rio de Janeiro, segundo a avaliação dos senhores Freycinet e Verdier, pesa 14,745 gramas.”

8. Nota de Saint-Hilaire: “Se Joaquim Alves podia exportar a preços tão baixos, é porque não havia nenhum pedido de carregamento de Goiás para o Rio de Janeiro; o preço do Rio de Janeiro para Goiás era bem mais elevado, como se poderá ver no capítulo desta obra intitulado Viagem de Araxá a Paracatu (volume I, p. 259). O aumento da quantidade de algodão a expedir terá, sem dúvida, feito elevar os preços de transporte; mas não terá podido ultrapassar certos limites, porque então não haveria mais exportações possíveis, e os próprios tropeiros eram bastante interessados em que continuassem.”

9. O padre, político e escritor Luiz Antônio da Silva e Souza, nascido em 1764 no Arraial do Tijuco do Serro Frio, é considerado o primeiro historiador goiano. Sua obra oferece uma visão dos fatos decisivos da Capitania de Goiás, retratando a transição da mineração para a agropecuária.

10. Nota de Saint-Hilaire: “Foi o que necessariamente sucedeu com a moeda de cobre que o governo provincial introduziu na região de Goiás e a qual se deu um valor fictício (vide o capítulo intitulado Quadro geral da província de Goiás, vol. I, 341).”

11. Não fica claro de quem é o texto deste parágrafo colocado entre aspas.

12. Nota de Saint-Hilaire: “Após a revolução que mudou a situação do Brasil, Joaquim Alves de Oliveira foi eleito deputado à assembleia legislativa geral do Brasil, mas não aceitou essa honraria. Esse homem generoso, não só fundou uma farmácia para os pobres do seu distrito, como ainda, dotou a povoação de Meia Ponte de uma biblioteca pública e uma tipografia. Fora-lhe predito que serviriam dessa última contra ele próprio, e, efetivamente, não tardaram a procurar difamá-lo em um libelo cheio de calúnias.”

 

O PICA PAU AMARELO
(ou O Sítio de Dona Benta)

“O sítio de Dona Benta ficava num lugar muito bonito. A casa era das antigas, de cômodos espaçosos e frescos. Havia o quarto de Dona Benta, o maior de todos, e junto o de Narizinho, que morava com sua avó. Havia ainda o quarto de Pedrinho, que lá passava as férias todos os anos; e o da tia Nastácia, a cozinheira e o faz-tudo da casa. Emília e o Visconde não tinham quartos; moravam num cantinho do escritório, onde ficava, as três estantes de livros e a mesa de estudo da menina.

A sala de jantar era bem espaçosa, com janelas dando para o jardim; depois vinha a copa e a cozinha.

– E sala de visitas? Tinha?

– Como não? Uma sala de visitas com piano, sofá de cabiúna, de palhinha tão bem esticada que cantava quando Pedrinho batia-lhe tapas. Duas poltronas do mesmo estilo e seis cadeiras. A mesa do centro era de mármore e pés também de cabiúna. Encostadas às paredes havia duas meias mesas também de mármore, cheias de enfeites; três casais de içás vestidos, vários caramujos e estrelas do mar, duas redomas com velas dentro, tudo colocado sobre os pertences de miçanga feitos por Narizinho. Hoje ninguém mais sabe o que é isso. Pertences eram umas rodelas de crochê que havia em todas as casas, para botar bibelôs em cima; para o lavatório de Dona Benta, Narizinho fizera pertences de crochê, e para a sala de visitas fizera aqueles de miçanga de várias cores, da bem miudinha.

Antes da sala de visitas havia a sala de espera, com chão de grandes ladrilhos quadrados, cor de chita cor de rosa desbotada. A sala de espera abria para a varanda. Que varanda gostosa! Cercada de um gradil de madeira muito singelo, pintado de azul claro. Da varanda descia-se para o terreiro por uma escadinha de seis degraus. Nas férias do ano anterior, Pedrinho havia plantado em cada canto da varanda um pé de cortina japonesa, uma trepadeira que dá uns fios avermelhados da grossura de um barbante, que depois ficam amarelos e descem até quase ao chão, formando uma verdadeira cortina viva. Aquela varanda estava se transformado em jardim, tantas eram as orquídeas que o menino pendurara lá e os vasos de avenca da miúda que ele foi colocando junto à grade.

O jardim ficava nos fundos da sala de jantar, um verdadeiro amor de jardim, só de plantas antigas e fora de moda. Flores do tempo da mocidade de Dona Benta: esporinhas, damas entre verdes, suspiros, orelhas de macaco, dois pés de jasmim do cabo, e outro, muito velho, de jasmim manga. Plantado na calçada e a subir pela parede, o velhíssimo pé de flor de cera, planta que os modernos já não plantam porque custa muito a crescer. Até cravo de defunto havia por lá, flor com que Narizinho implicava por ter cheiro de cemitério. Bem no centro do jardim havia um tanque redondo com uma cegonha de louça, toda esverdeada de limo, a esguichar água pelo bico. Mas a cegonha já estava sem cabeça, em consequência das pelotadas do bodoque de Pedrinho. Um velho regador verde morava perto do tanque, porque era com a água do tanque que tia Nastácia regava as plantas no tempo da seca.

– E o pomar?

– O pomar ficava nos fundos da casa, depois do quintal da cozinha, onde havia um galinheiro, um tanque de lavar roupa e o puxado da lenha. O poço velho fora fechado depois que Dona Benta mandou encanar a aguinha do morro.

Passado o quintal vinha o pomar – aquela delícia de pomar!

– Por que delícia?

– Porque as árvores eram muito velhas, e árvore quanto mais velha melhor para a beleza e a frescura da sombra. Árvore nova pode ser muito boa para dar frutas bonitas, baixinhas e fáceis de apanhar. Mas para a beleza não há como uma árvore bem velha, bem craquenta, com os galhos revestidos de musgos, líquens e parasitas. Certas árvores do pomar tinham donos. Havia a célebre pitangueira da Emília, as três jabuticabeiras de Pedrinho, a mangueira de manga espada de Narizinho e os pés de mamão de tia Nastácia. Até o Visconde tinha sua árvore – um pezinho de romã muito feio e raquítico. O resto das árvores não eram de ninguém – eram de todos. E quantas! Cambucazeiros, duas jaqueiras, os pés de cabeluda e grumixama, os três pés de sapotis e aquele de fruta do conde que não ia por diante.
Era tão antigo aquele pomar…” 3


3 MONTEIRO LOBATO, José Bento de. O SACI. São Paulo Editora Brasiliense, 1958, p. 9- 12.